segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Tatuagem

Havia um sentimento estático, parado há anos em um canto remoto de sua cabeça. Não lembrava a quanto tempo carregava as mesmas certezas, há quanto tempo não havia respondido a dúvidas da infância, talvez.
Era como um descortinar de pensamentos presos em um banco de areia, que qualquer alteração no clima poderia carregar.

Esse sentimento tinha nome, tinha lembranças. Se desenhavam em sua mente: móveis quebrados, o cheiro de cigarro, o tom de uma voz

Algo químico

Era capaz de reviver suas cicatrizes, como uma máquina indesejada do tempo. Chorava tanto de forma tão desesperada que um nó impossível de desatar permanece em sua garganta sem previsão de sair.

Já fazem anos, já viveu coisas melhores, tem consigo que já esqueceu tudo o que ouve, mas em cada atitude, em cada descontrole, em cada momento que tentou tirar a própria vida lateja essa lembrança que as vezes não mostra seu rosto, e nem precisa, pois as imagens não poderiam descrever nem de perto as úlceras abertas naqueles dias

Era ódio e não era possível se livrar dele e ele dela se alimentava e ele ela definhava dia a dia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Medicina

A costela doía de uma forma que parecia ter sido dobrada tantas vezes a caber numa caixa de fósforo. Era o terceiro (segundo? quarto?) dia que não dormiam, que seus olhos de vermelho profundo embargavam cervejas e cervejas no primeiro bar escroto que conseguiram ver.

Estavam quebrados de anteontem. E ontem estava, há horas atrás, num êxtase supremo e solitário e coletivo frente ao show do Bulldozer. Primeira vez que estavam presenciando. Como se, apesar de todo cansaço, do corpo e do psicológico alquebrado por uma vida de decepções, perdas, expectativas familiares, dívidas e mal entendidos, estavam ali parados sentindo Fallen Angel bater nas suas peles e lamber sem nojo as feridas mais asquerosas que tinham no corpo. Não eram fracassados, colecionavam vitórias, não desistiam. Mas com frequencia a importância de suas conquistas eram questionadas, subestimadas.

 Agitavam como se sua vida agora tivesse um significado, por que ali havia encontrado um companheiro na simples matemática das ondas sonoras, que aceleravam sua caixa toráxica mais do que qualquer farinha que encontrasse nos áureos tempos da Paim.

Não saberiam explicar se perguntassem, mas era como encontra-se consigo mesmo por dentro. Aquilo representava suas adolescências, as primeiras decisões das quais não abriu mão, os primeiros objetivos pelos quais lutaram, a primeira vez que ouviu as guitarras italianas em um soturno grito de guerra, conversando com os mais inconscientes tormentos que haviam na sua cabeça.

E agora estavam no bar, novamente. Aguardando o segundo dia do festival de Guarulhos, com outros pra quem o significado daquilo parecia ser o mesmo.

Iriam ainda ficar mais loucos, suas mentes iriam se perder em um emaranhado de conflitos antigos e futuros, iriam melhorar e piorar e melhorar e ir embora no mesmo dia ou não e chegariam na hora no trabalho. Não antes de sentir novamente a sensação de ter suas feridas rasgadas e costuradas, de ver os amigos em situação melhor/pior, de não ver amigo nenhum, mas tudo bem, tinham também a si mesmos.

No fim seria tudo muito particular, eles e cada qual seu auricular médico psiquiatra. Ainda estavam de pé e sempre estariam, porque a suas vidas eram aquilo mesmo. Beberam mais um gole e mais todos até que acabasse e riram das piores piadas

E fizeram o mesmo, até uma data que ainda não chegou, mas é a única que poderá para-los.

Quadra

A próxima jogada era uma bucha de quadra. Tinha que ser. Era a última peça que tinha na mão, era o último jogo do dia. Eram cem reais queimados na praça, em cinco partidas que cada uma não durou nem dez minutos.
Segurava a pedra na mão como quem segura um casamento fracassado que queria manter, um emprego que foi demitido, um amigo que o desprezava, o sossego que gostaria de ter conhecido, mas nunca soube o que era.

Travou a bucha de quadra no dedo e olhava fixamente para o formato de serpente do jogo de dominó. Pediu sem pedir ao cosmos e ao senhor do aleatório que sua bucha batesse aquele jogo.

E vejo o jogador que o antecede. E ele joga, jogou uma sena de quadra! Uma sena de quadra! A quadra a ponta do jogo.

Ele joga sua bucha com força, sorri depois de quase uma hora de semblante travado e coração duro, respiração apertada.

Rapou a mesa, cinco participantes, recupera os cem conto, num misto de araras e micos vermelhos e amarelos na mão. Seu momento de glória na praça dos Remédios duraram o embaralhar das peças até a próxima partida.

Perdeu, até perder tudo.

Turismo

Amoras caídas pelas escadas sujas do centro de São Paulo

Crianças olhando para o vazio enquanto baforavam sacos de cola

Uma mãe de família prestes a cometer suicídio no viaduto do chá

Um cachorro atropelado na BR 16

A fome delirante de um rapaz em uma entrevista de emprego

Sapatos roubados na rua Aurora

Um grito silenciado pela prudência de um ser estoico

Uma larva no olho de um homem, abaixo de um viaduto deserto

Um dia qualquer de uma caminhada por São Paulo.

Aniversário

Sentiu no rosto a pele da vagina de sua mãe e foi puxado por ela entre sangue, urina, placenta. Em horror, olho aberto, berrando e mandando pra goela aquela mistura de líquidos que mais tarde lhe diriam ser profana. Teve o corpo puxado e tocado por mãos diversas, uma luz forte jogada na cara, cortaram algo dele, um tapa, uns panos que o encobriam e depois o deixaram ali, em cima de um outro corpo.

Um calafrio correu veloz pela espinha. Seus orgãos pulsavam sozinhos, como faltasse algo que não iria recuperar mais. Seus pulmões encheram de ar e de lágrimas.

Estava vivo. E não poderia acontecer nada mais aterrorizante que isso.

Razão

- Não há placas aqui.
- Estamos perdidos, então?

O cheiro do lugar era familiar, mas não conseguia descrever o que era. Algo, algo... asfixiante.

- Acho que viemos dali.
- Já tentamos voltar por aquele lado. Até quando vamos tentar o mesmo caminho errado?

O cheiro. Ela olhava. Os cartazes eram velhos e se desfaziam pelas parades, que se desfaziam pelo chão. O céu era bonito. Mas a estrada só parecia dizer que não iria a lugar nenhum. Nem os levaria a lugar nenhum.

- Vamos tentar mais uma vez.
- Não vou me mover daqui. Ou vou pelo outro lado.

Eles se separaram. Passou pelo ouvido um zumbido gordo de uma mosca. Dos dois. O sol torrava ambos, em suas caminhadas opostas. Ambos estavam certos. Mas nenhum conseguiu chegar aonde pretendia. Chegaram a outros lugares.

- Gostaria de uma água.
- Gostaria de uma água.

A uma distância de pelo menos dez quilômetros um do outro, ambos caem com o rosto estatelado no chão. O asfalto fervia. A parede caía. Os olhos apagam.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Fly

nove da manhã. Como todos os dias, o que acordou foi o sol irradiando atrás da cortina bege. Ainda não havia aberto os olhos, movimentava o globo ocular dentro das palpebras. Fazia isso rápido, muito rápido. O sol incomodava de uma maneira que não era normal.
Abre os olhos. Sua retina pegou fogo assim que olhou a realidade. E a realidade era essa: seus móveis estavam no mesmo lugar. Seu ventilador estava confortavelmente ligado, como havia deixado. Seus cds fora das caixas. Seu relógio em funcionamento, o tempo passando como antes. Ela, ali, ainda como antes.
Um incômodo. Alguém a chama. Mais de uma vez. De repente se pegunta o que a acordou, realmente. Fica estática, embaixo do cobertor. O dia fervia lá fora.

Os cds estão fora das caixas?

Queria conferir, colocar algo para tocar. Mas não conseguia se levantar. Chamam mais uma vez. O sol se apaga. Talvez uma nuvem bem espessa. Mas a nuvem estava dentro do quarto. Estava?
Era preta e falhada, mas parecia não tão espassa, parecia parte de uma mesma...coisa.

Ouvia seu nome. Seus olhos não paravam de se mover, era cansativo. Tinha muitas coisas a resolver no trabalho. Havia compromissos. Coisas que ainda não havia dito (morte), que ainda não havia feito (morte), que ainda não havia escrito (morte). Que ainda não havia sentido.

Seus pensamentos eram como um fio de saliva de encontro a um banco de areia. Estavam se ressecando. A boca estava branca e o corpo tremia.

NOME!

ouviu bem perto agora o chamado, como um despertador que a acordou, de novo. De que lado ela estava acordando? Ela havia acordado antes?

Tomou um impulso e se levantou da cama. E com ela, no outro cômodo, se levantaram 60 moscas, gordas e lentas, que alçavam vôo e morriam tão logo pegavam altura, tão logo chegavam próximo a porta do seu quarto. Uma a uma, caíam. Algumas viam mais rápido, chegavam mais longe, entravam no quarto; mas também despencavam no chão, tentando bater as asas com violência: mas só conseguiam girar em torno de si mesmas até ficarem

estáticas


Estática. Sentou em sua cama e olhou para aquela cena. Para várias cenas. Viu naquele momento várias coisas das quais sequer se lembra (nome!), quantos dias estava ali? Relógio (nome!) marcava nove e cinco.

O vulto preto corre e passa pela sua mão. Entende que está sendo convidada a ir para algum lugar. O que atrairia tantas moscas? 60 moscas varejeiras gordas a morrer pela casa. O que?

Segura a si mesma e não se sente. O coração descarrilha como uma vida de decepções que de repente, perdem o controle e encontram apenas o vazio. Nada pode ajudar agora. Sente que não pode controlar aquilo. Sua mente não obedece.

(não faz sentido, as moscas, o vultos, as vozes, não está acontecendo isso, preste mais atenção, tente se acalmar, você está se autoimpressionando. feche os olhos, tente se concentrar na sua própria respiração. se impeça de pensar)

NOME!!!

É impossível. Há alguém ali (não tem ninguém aqui), há alguém, está me chamando, está querendo pegar minha mão, elas vieram me buscar, as moscas, só vem assim quando há (morte), cheiro de morte estou morta (você não pode pensar nada morta, você não está morta) porque viriam tantas moscas (há uma explicação, devem ter detetizado o lugar) PORQUE ELAS CHEGAM E MORREM???

CORRE PARA A PORTA, ABRE, NO CORREDOR NÃO HÁ MOSCAS. SÓ AQUI EM CASA, NÃO CONSIGO SAIR (como não consegue, só saia) não consigo sair (dê mais um passo) NÃO POSSO! (SÓ UM PASSO!)
ESTOU MORTA! (respire fundo, se acalme!) MORTA! (JOGUE (NOME!!!) ÁGUA (MORTE!!!!) NA CARA!!!)

Telefone é para emergências (tuuumm)
telefone é para emergências (tuuumm)
telefone é para emergências (tuuumm)
telefone é para emergências (tuuumm)

 me ajuda
 tem alguém aqui
 eu estou viva?
 você está falando comigo?
 não precisa
 eu estou aqui? (ridícula, é claro que você está aqui)
 desculpe, não queria (desligue isso, saia de casa)
 eu estou incomodando (se controle! nada disso está acontecendo)
 EU ESTOU VIVA VOCÊ ESTÁ FALANDO COMIGO? EU ESTOU AQUI???? (PARE COM ISSO!!! PARE DE INCOMODAR AS PESSOAS, NADA DISSO É REAL!!!)

 VOCÊ ESTÁ FALANDO COMIGO?????

Espelho. Cadeira, faca

 Pega a faca e pressiona contra o braço. Com força.
Se eu estiver viva eu posso sentir (morte) eu posso sangrar (nome!) eu posso morrer! (nome!!!! nome!!! nome!!! nome!!! nome!!!)
 Com força
 com força
 com força
 com força

triiiii
triiiii
triiiii
triiiii

 COM FORÇA!
 (TRIIIII)
 COM FORÇA!
 (NOME!)
 COM FORÇA!
 (FIO DE SANGUE)
 COM FORÇA!
  (triiii...)
 FORÇA!
  (...nome...)
 FORÇA!!!!
  (.......morte.......)
 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Vivo

Miserável de espírito, de tentativas, de coragem, de consciência.
Andava como se o costume de andar fosse a única função que seu cérebro fosse capaz de executar. Não sabia se estava quente ou frio, se era noite ou dia, se ia para a direita ou para a esquerda. Porque nada era compreensível. Inteligível.
Era uma realidade com a qual não tinha participação, um idioma estrangeiro difícil. Não se reconheceria se olhasse a si mesmo no espelho.
Tinha uma variedade de feridas, de doenças, que brotavam dos seus olhos, da boca, debaixo das unhas, saíam pelo seus ouvidos. Espécies inéditas de vermes se desenvolvendo dentro de sua gengiva.
Suas memórias eram como itens guardados em um bolso aberto, de uma jaqueta perdida em um oceano profundo e silencioso.

Não tinha nada, não consigo sequer a dor. Estava sendo devorado vivo. Por fora e por dentro.

Dentes

Ela pediu um pão francês. Os mais mal assados que tivesse. O olho estava ainda cheio de uma remela de ontem, meio dura. Dava ao olho um ar oriental que lhe caía bem.
O funcionário sorriu. Na verdade, já sorria previamente. Pegou o pão sorrindo. Sorriu para o saco de papel pardo. Entregou a moça e, ainda com um escancaramento de dentes entregou a comanda.
Ela foi até o caixa. Passou por um senhor, que também sorria. Para a prateleira, para o pacote de miojo. E agora, para ela.
A moça desvia. E vai pagar seu pão. O homem do caixa olhava para a rua, com um olhar perdido. Observando os carros de placas de outras cidades. Se imaginando como alguém que cada dia está num lugar diferente, que podia jogar tudo pro ar a qualquer instante. Seu dentes a mostra eram tão amarelo-acinzentado quanto seu acento branco, marcado pelos 34 anos em que se sentou ali.
Ela pagou e foi embora. Atravessou a rua na faixa. Um grupo de moradores de rua sorriam para ela, atrás de um carrinho de recolhimento de sucata.
Um rádio anunciava, dentro do carrinho: "Surto de lepra em Belo Horizonte, arrastão generalizado no Espírito Santo, Bahia se torna um estado independente, a Amazônia termina de ser asfaltada, expectativa de vida sobe para 35 anos".

Ela caminha pouco e chega até sua casa. A sua casa de hoje. Escolheu uma bonita viela, escura, mas com trepadeiras nas paredes. Se sentou e mordeu seu pão. Enrolou-se com sua cobertura. Pegou seu espelho.

Sorria. Com um desespero que rasgados qualquer mandíbula desacostumada. Seus dentes diziam sim, SIM! A tudo que houvesse, a tudo que pudesse, a qualquer farelo que aparecesse.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Era o tempo de uma estação para outra. Cinco minutos, talvez. Talvez nem isso
 Vendiam algo no trem. Tinha fome, mas não tinha dinheiro. Outras distrações passaram pela sua cabeça. Não lembra de nenhuma.

Ele estava a dois bancos de distância. Entretido com o celular. Parecia estar falando com alguém.

Não o via há 15 anos. Ele a jogava pro alto em um parque,  e na zona oeste de São Paulo. Não lembra o nome. Nem do parque, nem dele. Havia separado da mãe e nunca mais o viu. Olhava a si mesma no vidro do  trem. Estava destruída. Estava drogada.

Ele a segurou todas as vezes em que a jogou pro alto. Menos na última. Ela ainda caía.

Cinco minutos. Menos talvez.



Era menos. O tempo acabou.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails