sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

(In)expressão


A faca atravessou minha pele sem querer. Foi fundo e o sangue saía como uma corredeira, na sua cor viva e expressiva. Larguei o braço ali e deixei ele correr. Deixei ele escolher o caminho que queria fazer. Se achasse pertinente, ele que tentasse se enfiar pelas minhas veias de volta.
Foda-se. O esvaziamento me inundava de um sentimento estranho. O sentimento de morte, que não era pior do que outros sentimentos que tive em vida.
A morte não vai resolver essa merda. Meu último segundo será uma fuga, uma vitória a cada pancada que já tomei. Se tornará um receptáculo que me caminhará até algum caminho desinteressante e me lacrará em algum lugar desagradável, sob ritos que eu não acredito. A morte não é o pior. É só um descanso. Descansar? Eu procuro outra coisa.

Não. Minha expressão nunca mudou. Registrei isso. Eu ainda não concluí a minha obra. (Pega toalha, enrola e pressiona). Pressiona. Volta tudo aqui pra dentro, todo tédio, ódio, descaso, poder de fogo. Recolhi tudo o chão e tentei me repôr. Aquele sangue corria como se tivesse vida própria. Como se quisesse contaminar o solo que tinha contato.

Mexi minhas mãos, elas são firmes. Se eu fosse outra coisa. Mas eu sou uma praga. Sou um vírus. Ainda não, ainda não.

4 comentários:

  1. Sei qual a sensação desse corte, mas nunca quis que o sangue retornasse para as veias.

    Só pra deixar claro, estamos num projeto, quer queira, quer não.

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  2. Corte sem querer faz tempo que não sei o que é

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  3. querendo faz menos tempo.

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Olá. Você, sendo você mesmo, não é bem vindo aqui. Mas se você for qualquer outra pessoa, sente-se no chão e coma uma xícara de café.

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