quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Gloriosa vida de merda



Um café e um pão com manteiga, só isso e nem tinha vontade disso, era só pra ocupar o estômago e, por ventura, ter o que vomitar de noite. O garçom volta com o café, o pão com manteiga, palitos de dente, um saleiro, um molho shoyo, de pimenta e de alho. Haja proatividade, mas senti falta do açúcar. Foda-se. Engoli dum gole só o café no meio de um mini bolo de pão, manteiga e shoyo. Realmente, o shoyo na manteiga não era tão legal, como eu já suspeitava. Fui pagar, merda, uma das moedas cai no chão, chama a atenção de todo mundo e lá vou eu curvar minhas costas para aqueles vinte e cinco centavos que rolou mesa abaixo.
Eu. Eu e meu hálito sedutor de Montila, café, cerveja, shoyo e manteiga. Eu e meu hálito sedutor e meu corpo moído e outras coisas que eu estava evitando pensar atravessando a Nove de Julho. Tinha lido, há minutos atrás, a declaração mais bonita que já me fizeram. Alguma outra, que eu tenha feito a mim mesma, ainda era mais bonita. Apesar disso, poxa, como foi legal ler. Foi feita em eufemismos, mas no fundo dizia “eu te amo, você é linda e inteligente, mas vou parar de falar com você. Você é doida e maldito o dia em que te conheci. Por favor, vai tomar no seu cu.”
E ainda estou bêbada, não tenho nem idéia desde quando. Olhei as manchetes na banca. No Rio tem guerra civil, tomara que todo mundo tenha um estilingue em casa. Eu queria um estilingue. E estofados nas calçadas. Merda. Meu corpo moído e meu estômago estão me comendo. Se a minha consciência entrar na jogada, vão os três me comer de quatro. Argh. Calçada dura da porra. Caneta ruim da porra. É a terceira vez que eu furo o guardanapo enquanto escrevo essa merda. Calçadas deveriam ter estofados e apoios para guardanapos. E canetas novas, também.
Ainda dá pra roer uns bifes e umas unhas da mão. Tem umas pelinhas da minha boca pra comer. Bate um ventinho tão gostoso, tá meio friozinho. Da vida boêmia é difícil querer ir embora, todo o instante parece legal, mas o foda é no fim do dia e achar que nada valeu a pena. O boêmio é a esperança do mundo. A esperança de que aconteça algo que valha a pena. E esse sentimento dá um calorzinho no peito e faz o café sem açúcar coado na meia de velha e pão ao manteshoyo terem um gosto melhor.
Olho pro outro lado da rua. Os restos dos camaradas estão atravessando a avenida. O dia ainda não acabou. Há meses.
Ah,
Gloriosa e adorável vida de merda.

9 comentários:

  1. Como todos em seus textos eu tenho que bater palmas (:

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  2. ahahaha porra, eu reamlemnte só tinha lido o primeiro e o ultimo paragrafo.
    vou ler mais umas quatro ou nove vezes, rs. deixa o banho pra outro dia, rs.

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  3. repostado lá - tsc, mas é ralmente ruim.
    ...agora o chuveiro.
    boa quinta, babaca, rs.

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  4. Você nasceu pelada, careca, banguela e sabendo que vai morrer. Tá limpo. A vida é muito curta pra ser levada a sério.
    Pérola chupada do seu texto para o meu twitter assumida e descaradamente: "O boêmio é a esperança do mundo"
    Queria tem um guardanapão desses também...

    Bjo do escroto!

    Prof. Janderson Council
    jandersoncouncil@gmail.com
    www.blogdoescroto.wordpress.com
    @blogdoescroto

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Olá. Você, sendo você mesmo, não é bem vindo aqui. Mas se você for qualquer outra pessoa, sente-se no chão e coma uma xícara de café.

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