segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nacional puta

Saiu meio-dia, não antes de se emperequetar o suficiente para não caber mais acessórios pendurados no corpo. Chegou na rua e começou a olhar as possibilidades, as pessoas, o movimento. Sua vitrola começou a tocar uma música imaginária e nesse ritmo foi desfilando, fingindo não ver as pessoas que queria que olhassem para ela. Fingindo que não se importava com nada, quando no menor comentário negativo, aquele nariz empinado desabaria e rolaria pra dentro do esgoto. Chegou no bar e não pediu nada, não que não tivesse alguns trocados, mas alguém certamente pagaria por aquilo. Pelo goró e a vontade de se sentir importante para merece-lo, sem esforço.
O cara de quem gosta diz que a cada dia está mais gorda e estúpida. A madrasta, que o neto postiço a chama de mãe. O traficante, que não vai trocar farinha por celular vagabundo. O cabelo, que tem que parar com a chapinha antes que fique careca. Já o vizinho, um safado purulento, a chamava de gostosa, cavala, linda, sorvetinho. Dava uma risadinha e ia embora. Ou pedia açúcar emprestado. Ele, nunca bateu na sua porta.
Gostava de gentilezas, daquele que puxa a cadeira para que ela sente, que oferece sua bebida, que oferece a blusa no frio, que abre a porta do carro quando ela ansiosa se pendura na janela de vidro, antes que ela feche. Estas gentilezas, esforços tão mínimos quanto o trabalho mental da menina em perceber sua dependência e submissão, enquanto dizia livre e comia os homens que queria. Servida e comida estava sua cabeça, por um punhado de ratos e baratas que encontrou e com quem dormiu.
Não queria fazer, mas também não queria pedir, embora não raro estivesse mendingando migalhas e as arrotando como espertezas. O que ela queria mesmo era merecer, sem esforço. Errar e ser acarinhada. Falar bobagem e ter tida com gênia. Dar sorte e parecer que joga bem, conversar bem e entender de tudo mesmo dando tacadas estúpidas a ermo.Mas, na falta disso, arrumou o decote pelo padrão nacional e aguardou uma companhia. Demorou um pouco, mas rebeceu um gole de cerveja quente de um bêbado e foi embora. Saiu puta.

Pode parecer uma rameira decadente. Mas também pode parecer você.

Um comentário:

  1. Se dizem que sou puta, farei do mundo um bordel.

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Olá. Você, sendo você mesmo, não é bem vindo aqui. Mas se você for qualquer outra pessoa, sente-se no chão e coma uma xícara de café.

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