domingo, 16 de abril de 2017

Eterno

Era tarde, estava bem disposto. Mas não podia sair de casa. Porque estava morto.

Se decompunha lentamente. Aos poucos, se lotava de moscas. De vermes que apareceram não sei de onde. Talvez já estivessem lá. Nunca fez um checkup no médico, bem sabia que coisa boa não havia lá dentro.

Chegou a primeira barata. Detestava baratas. Queria expulsa-la, mas não teve jeito: ela se alojou bem no seu olho. Parece que colocava alguma coisa colada nele. Era um ovo. Tinha vida naquele ovo. Ele podia sentir vida querendo se expandir, se alimentando, se aquecendo. Se aquecendo dele.

Sentia vontade de correr, pensava. De tomar um sorvete. De limpar a casa, até. De tomar um banho e tirar tudo aquilo. Sentia a pele inchar, sentia o próprio cheiro. Sentia como se fosse desmaiar de tão forte, mas aguentou firme. Mas até quando aguentaria? O que precisava fazer para encerrar aquilo?

Então resolveu. Se distraiu com um pensamento, onde mudava de casa, embalava suas coisas, limpava seus CDs um a um. Arrumava suas meias e as colocava em ordem dentro da mala. Tirava a sujeira dos sapatos. Contava seu dinheiro. (Tinha algum pra contar). Ia a cozinha e comia um assado. Ele mesmo havia preparado, com batatas e pimentão. Fazia um pouco de frio e ele fez um chá. Se sentou em um sofá macio e relaxou em uma posição confortável.

Argh! Voltou a realidade com uma mordida e na seguida outra e outra e várias, ao mesmo tempo. Tomou um susto, ratazanas do tamanho de gatos, comiam salivando a perna direita. A perna direita, que tinha uma tatuagem que ele gostava, um samurai de grandes feitos, um tal de Musashi. Ele queria o sangue ao redor da katana mais realista na tatuagem. Agora ficou.

Tentou se distrair de novo. Pensou em como acabaria "Rei de Havana", o livro do Gutiérrez que estava lendo. Em como havia sido - ou estava sendo, havia perdido completamente a noção do tempo - um show que iria, que já estava com ingresso. E se alguém deu falta da presença dele.

A perna começava a sumir. Musashi veio de terras distantes e empunhava sua katana, na batalha de sua vida. Mas não se moveu. Foi engolido, como uma pequena bala que se come de uma vez. Rei foi procurar comida e não voltou.

Mais ratos. Da onde estavam vindo tantos? Não lembrava do lugar onde morreu. Pensava em muitas coisas, até que viu uma cena bonita. Que o aqueceu, de alguma forma. Um rato jovem, de fisionomia simpática, mordeu a ponta e puxava seu intestino. E saiu correndo a uma distância impressionante. Pulava feliz por cima dos outros e carregava aquele misto de carne, merda e líquidos podres cheio de saúde e entusiasmo, como um cachorro que encontra uma fileira de lingüiças. Outros ratos tentaram capturar, mas ele era ágil e pulou, correu, enquando o intestino ainda podia ser esticado. Mas, quase no fim de sua missão alucinada e sem propósito, tomou uma rabada violenta de uma ratazana gorda. O olho dele apertou, triste, de dor. E saiu mancando. Talvez nunca mais pudesse pular de novo. E certamente seria comido pelos companheiros mais tarde.

Alguns já chegavam no pescoço do homem. Então se deu conta que já praticamente não tinha cabeça. Aqueles bichos comiam até seu osso. Resolveu pensar em outra coisa.

Numa viagem. Não havia viajado. Pensou em cima de uma moto, avançando com fúria, queimando o asfalto e sentindo o vento no rosto. Olhando montanhas de impressionante beleza, sozinho na estrada, como se o mundo fosse dele, como se do mundo pudesse ter tudo.

Quando voltou de sua viagem, a festa estava no fim. Os ratos já haviam ido, em maioria. Ficaram uns poucos roendo uns pedaços de osso.

Ele agora era um punhado de sangue, que se confundia com o piso. Mas ainda estava ali. Esperando alguma coisa.







(...)

 Mas havia cansado de esperar. Então foi para o Everest, domar uma montanha. No inverno mais cruel que já se havia tido notícia.

Alguém abriu a porta da casa. Jogaram cândida, desefetante, cera líquida e álcool perfumado. Ele sumiu, ele não existia. Crianças brincavam em cima dele. E ele ainda estava ali, agora jogando cartas com demônios no inferno, já programado para ver a aurora boreal no fim do dia, após um rodízio de comida mexicana em um cruzeiro no Pacífico, e ainda após uma partida de futebol dentro de uma favela enorme, aonde os vizinhos devolviam a bola e não reclamavam que ele havia quebrado o vidro.






(...)

Um comentário:

  1. Não é um dos piores, certamente.
    Fiz algos parecido por aqui.
    Não paramos de dialogar.

    ResponderExcluir

Olá. Você, sendo você mesmo, não é bem vindo aqui. Mas se você for qualquer outra pessoa, sente-se no chão e coma uma xícara de café.

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