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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Identidade ou Eleições, parte III



Não. Porque eu não quero, mas sei que deveria querer. Porque vai fazer bem as plantas, aos andarilhos, a camada de ozônio e a estima que você tem de mim. Porque vou ter orgulho do que fiz, vão elogiar horrores, vão dizer que sou exemplo e que sou uma boa pessoa. Mas talvez, eu não seja. Não dessa forma peçonhenta, ao menos. Não pela conveniência, aguardando aprovação e sentimento altruísta auto-bajulador.
É bem capaz que eu saiba exatamente o que você quer ouvir; quer que eu use palavras complicadas para elogiar sua inteligência, que eu diga que tenho compaixão de tudo e que meu maior defeito é ser ansiosa.
Que eu fale de tudo, mas não precise saber de nada; que minhas ambições encontrem satisfação nos limites que me foram impostos.
Você quer que meus modos sejam brandos, que meus nervos sejam de aço, que minhas pernas se cruzem e que meu salto seja maior do que meus desejos não-coorporativos. Que eu fale sobre política pensando nas crianças de rua grávidas que não votam e que eu diga, enfática, que me preocupo com elas, sem nada fazer. E principalmente, sem as crianças quererem que façam nada por elas.
Só a esmola, que foram educadas a receber.
Quer que eu seja obediente e discuta concordando, que te faça favores e ache isso um dever, que mude minha forma de agir, pensar, vestir e comer porque esta, não te agrada. E cada vez que eu cuspir nas suas expectativas quanto a mim, você vai me arrastar para baixo e dizer que não vou adiante.
Vai dizer que sou acomodada e manipulável. Que não li o que tinha de ter lido. Que não aprendi a respeitar, que sou agressiva e não tenho meio termo.
Que sou egoísta, não penso nos outros e no que vão pensar de nós. Que na primeira oportunidade que tiverem vão me humilhar por meus atos pouco ortodoxos, até que eu fique com tanta vergonha de ser eu que me torne você. E depois, um outro mais forte.

Não. Eu sei o que você quer ouvir e ver. Eu sei como te agradar. Como fazer você achar que eu posso te fazer feliz e te posso ser útil. Como posso tirar vantagem desse seu ego gigante.
Mas não quero, vá pro inferno.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Barata de Artani.






Esses dias, ouvi falar de você.
Nem faz tanto tempo, mas não vou mentir que a memória registrou tudo. E talvez por isso mesmo, tenho me descoberto tentando encaixar as peças do seu rastro.
O que tenho dele é a fumaça do cigarro emprestado, o cheiro químico de ontem, a gargalhada desmedida - que ria não porque achava graça, mas porque não achava nada mais interessante pra fazer -, Sid Vicious rasgando a rainha, mais ou menos os mesmos amigos e mesmos problemas.
Dessas pistas, quando tentei seguir, olhei para o cenário e vi tantos de você que achei que você estava ali sim, eu é quem não queria e nem devia procurar. Mas mesmo havendo todos estes seus iguais de gírias e hábitos, de caminhos falhos que desembocam em sumiços sem aviso, é para você que eu escrevo; é da calçada dura amanhecendo suja de vinho roubado, é da tua lágrima, da tua paranóia, do teu bom humor sacana, de um abraço roubado, da praça que eu lembro. Talvez vendo de outra forma, mas não é isso que importa.
O fato é que com o tempo passando, antes que pudesse dar pela falta senti saudade de você, barata. De te falar que teu inseticida sai do antídoto da tua fuga. Que era tanto do que queria que acabou por não se querer.

Não sei se está morto ou vivo, só sei que a faixa preta da caixa de Artani te parecia cada vez mais clara, ao menos até a última vez que te vi.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A libertação daquela Amélia.



Você que gosta de mostrar esse par de coxas, espremido no shorts jeans, de comprimento tal que não faz a menor diferença estar ou não aí. Pinta a cara de um jeito que não faz a menor diferença ter um rosto ou não. Alisa o cabelo pra deixar essa aparência opaca e rústica, cobre quase que só seus bicos e joga o cabelo pra trás, pra mostrar o pouco que estava coberto.
Que gosta tanto de falar e rir deste jeito falso e gemido. Sente o maior orgulho de comentar das drogas que usa, da vida que leva, do número de pessoas que cumprimenta quando chega. De falar que não se importa quando te apontam nas vezes que tu chega com o olho roxo e o nariz cortado. De sair na noite e beijar ou foder com tantos caras por aí, nos banheiros de botecos a troco de um tiro, que quando alguém te acusa não sabe nem se defender.
É contra aquela mina bonita e sexy que trabalha e estuda, que você se enche de têtas pra dizer que é mulher e sai feito cachorro rolando nas calçadas, duelando dentre o lixo.

Que fica puta quando falam que o seu lugar, Amélia, é calada e de quatro.

Tu, que fala pra caralho, sempre mais do que devia;
E depois entristece quando ninguém te ouve, só te olha; e não sentem pena quando você chora por causa dos dois filhos que largou no abrigo e o terceiro, com sua mãe doente.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

7 de setembro



Não posso não cometer crimes e não elaborar provas. A defesa não é reação e sim ação. Eu sou o que visto e se não for, me falta a personalidade.
Tenho que buscar o que já foi determinado, porque as placas já estão postas com as direções. É um sistema, ele precisa de mim como ele; eu mesma, nada valho. Cair é burrice de quem não nasceu sabendo andar.
Eu tenho a autonomia de escolher se quero ser exemplo ou se quero ser escória; de ser o que eu nunca fui e almejar momentos de um andarilho livre e bêbado, feliz sem causa.
Eu sou livre para ser independente, pertencendo a mim e de mim todo azar de frustrações pela mentira que me causa ser feliz.

É questão de conveniência, a independência ou a morte.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ode a raiva II



Um bom demônio sabe falar bonito, foge nas horas certas e cobra coisas que não tem preço, só pelo prazer de ver a inquietude alheia. É a melhor das companhias e dos atores. Finge que não se importa e vezes, faz o presente lindo que só a criatividade pode produzir. E por esse último detalhe, tão raro de encontrar por aí, parece que vale a pena todo o resto só para possuir tal jóia, que mesmo quando opaca pode voltar a brilhar qualquer dia.
Mesmo que ele diga o contrário, nunca se sabe se ele ama você. Mas é certo que ama o próprio orgulho e a sensação de poder sobre as pessoas. Então, se um dia realmente cansar de se torturar por ele e for embora, ele vai te fazer olhar para trás para pensar que ainda há o que ser resolvido e dito. Vai te provocar a sede de vingança, para que tu venha bater e xingar, até que se sinta aliviado e com mais dignidade.
Ele vai te fazer sentir um punhado de todo azar de coisas horríveis e essas sensações vão te intrigar; tu vai acreditar que para se importar a tais níveis, só pode ser amor. E se aprendeu antes, teu coraçãozinho vai entender que apaixonado ele é tão imprudente e pouco orgulhoso, que no final a culpa é toda sua e de seu destempero.
Quando você pensar que está sendo feito de otário, o demônio vai se desmanchar em lágrimas, tão fácies de brotar do inferno que ele planta e colhe. Será de uma verdade comovente que mesmo após tantos desastres, se não causa a certeza não passa da dúvida da veracidade.
Você pensará que nunca encontrará amor como aquele, sentirá que não importa o quanto fuja que sempre voltará, nem que seja pra machucar também e se anestesiar junto, depois. Fará o que jurou que não faria e manterá alguns princípios, para não se sentir tão descaracterizado. Maquinará como fazê-lo sofrer como ele o faz, achando que este é o dado amoroso. E vai funcionar; ele vai fazer o que você quer, mas depois vai te cobrar. Quando chegar nesse ponto, teu exu terá arrancado para sua face um bocado daquilo que há de pior em você, nascendo uma sinistra cumplicidade.

E quando tu se olhar no espelho, vai achar que encontrou sua cara metade. Eis o inferno, em carne e osso.

[pela arte de aprender com a raiva para uma vida melhor ]

sábado, 21 de agosto de 2010

Eleições 2010, parte I e O Todo



Porque o feudo é pop.

O fiambre.
Ouviu da política e esperou esfriar o debate para gritar o desfecho, quando ele chegou.

O filantropo
Que queria votar pelo bem de todos e optou pelo discurso mais exagerado e impossível.

O fiel
Tem partido e vota há anos nele, quem quer que seja o candidato. Ou há anos não vota de jeito nenhum em tal partido, quem quer que seja o candidato.

O frouxo
Que fugiu dos debates por achar que pouco conhece do assunto, mas observou bem os candidatos e tentou fazer a escolha mais correta.

O fidaputa
Tem uns 25 anos e queria me impressionar com seu discurso político, gritando dentro do ônibus e impedindo o meu cochilo.




O todo

O todo da parte não responde pelo todo do homem.
A parte do todo é em parte, mutável.

A parte disso, só um doce colírio ou mesmo um toldo, para olhos xiitas.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ode a raiva



Meu ode não tem estrofes, nem é alegre, nem é música. Mas ele louva com desespero de um profundo acorde (o pulso) a raiva, pelo descortinar das linhas. Já que antes de nossas vontades serem deixadas fora de questão, como se fosse o absurdo que elas importassem para alguém, temos o triste fato de nós mesmos termos medo delas. Porque já é natural se apaixonar pelo demônio e grudar as esperanças de um mundo melhor nos seus raros atos louváveis, vezes que só os próprios olhos podem ver.
E a defesa contra isso? Não é nem o amor, menos ainda a paz. É aprender a ter a raiva e a reconhecer as cicatrizes. É compreender que o gosto do sangue não é um período de espera até a melhora e sim um momento de reflexão.
Não há imunidade contra a própria burrice, contra os vícios e hábitos, contra a sede de adrenalina. Estar de joelhos perante as conseqüências não é lamentável. É cólera.
Onde há amor neste mundo? Onde há paz e felicidade? É sempre no acerto, no cômodo, no fácil. É lá que se constroem as lembranças que fazem a vida valer a pena. Mas o passado cada instante fica mais distante e amar o que te fere é hipócrita e estático.
Assumir a raiva e o desgosto é comprimido. É cursinho. Não tenha medo do teu livro de história, ou pra que diabos ele te serve?
Mas mesmo no aprendizado, você quer se livrar de certos vícios, mas não pode se livrar de você mesmo.

Então, ao menos assuma,
Já que viver é vício e ser abstêmio mata.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ministério da Saúde de Losterh



Faz mal, emagrece.
Diritma e chora.
Dá nó apertado, não dorme.
Se confunde.

Tudo sob a dúvida.
Da lembrança, de agora.
Catando do chão recortes e dos olhos, cortes.

Se alimenta das olheiras,
Do cansaço de ser, sendo.

No fim esta, a própria cura.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A fabulosa arte de tentar ser menos idiota

Não, seu cabelo não ficará como de Gisele Budchen se usar Pantene.
Não, você não entendeu o que Niet quis dizer na página 15.
Não, você não escreve bem e canta pior ainda.
Não, você gosta sim de Johnny Depp e canta Lady Gaga.

Não, eu não quero que você concorde comigo ou tente entender o que digo; entenda da sua forma e ficarei feliz se isso te for útil.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Imoralidade.



Eu sou uma cabra, já que quero ser uma cabra. Consegui liberdade o suficiente para acreditar que sou uma cabra e que dominarei o mundo com um pedaço de picles. Vou batalhar pelos meus direitos cabreiros, mesmo que não haja ninguém que possa batalha-los comigo. Eu serei respeitada pelo que sou e pelo que sei fazer, mesmo que não saiba ainda o que seja. (Porque tenho para isso a capacidade e ninguém pode duvidar). Eu tenho uma bandeira e a carrego comigo, costurada na minha cabeça.
Posso não saber o que quero e nem o que gosto, mas eu sei o que eu quero que você ache que quero e gosto. Eu posso não ter o mínimo interesse por estudos, por atualidades ou por grandes cérebros do mundo e ainda assim cobrar todos os direitos meus como cabra e ser vivo.
Ou me interessar por tantas coisas, mas não para siriricar conhecimento e sim para poder parar com meu graveto e rabiscar na terra os auxílios que isso a minha vida agrega. Posso não ter razão e arriscar tê-la.
E posso também, depois de uma longa batalha, às portas da vitória, achar tudo o que fiz uma tolice e comer meu pedaço de picles. E então, abrir um cabaré de sacis e proletários manetas.
E ainda, no meio do pasto em que vivo, me recusar a ser mãe e a doar meu leite; chupar eu mesma meus mamilos e não pular, mas quebrar a cerca; posso aceitar a ração que me dão ou não. Ser maculada e imaculada, simultaneamente. Imissa, cheia de sangue.
Posso e devo ser imoral, sem perder o caráter como fêmea ou macho. Sendo dona de meus instintos, assumindo-os. E não sendo dominada por qualquer momento de euforia que bata às portas da minha insanidade. Posso ser longe do ideal, ilegal e cruel, e assim serei umá cabra criada pelo seu ego, que necessita de alguém a preterir, a cuspir e a selecionar. Pois se não é o transgressor quem agrega, quando mais tempo demorará para que passe a velha era?

E mesmo preterida, surrada, dos pêlos nem tão negros, eu sou uma cabra que tão tem a ridícula vergonha de como escolheu ser.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Laranja Orgânica




Nestes últimos dias, tive uma overdose de paz. Fui ao parque e passeei em torno das árvores. Quando achei que estava muito calor, de repente a temperatura abrandou e veio aquela deliciosa brisa fria na minha cara. Estava prestes a reclamar do canto do pássaro – aquele compasso repetitivo me irrita profundamente – quando o bicho se calou subitamente, como se acabasse de levar uma pedrada no bico.
Olhei para aquele que me acompanhava e lembrei como há alguns dias estava com raiva dele; mas ao me dirigir a ele, não consegui fazer nenhum comentário irônico. Ao invés disso, eu sorri sem aviso e claro, me assustei quando me percebi sorrindo.
Enquanto eu tentava entender o porquê daquela crise de docilidade, que me coordenava os movimentos sem pedir permissão ao que de fato penso, minha mão foi tomada e ganhou um beijo, meu ombro foi aliciado e meu ouvido estava sentindo muito mais batidas do que o comum, vindo daquele outro coração que estava ali. E desse jeito estacionou por horas aquela tarde, eu com um vazio na cabeça que me agoniava, mas do qual eu não vi maneira de me livrar.
Ou então no dia em que reunimos os amigos. Conheci outras pessoas muito legais e ficamos cantando e tocando qualquer música que viesse à cabeça, com qualquer dos instrumentos que estavam presentes. Sentados no chão, vendo pinturas, bebendo e conversando sobre qualquer assunto, sem debates. E enquanto isso era abraçada por uma mão que não se esquecia de mim, e ininterruptamente ficou a acariciar o meu braço. Andei até antes de cansar os pés, ri até antes que me doesse a barriga e fui embora antes de, de fato, estar cansada.
Era tudo de uma uniformidade que me incomodava, que melhor ainda dizendo, me dopava. Um roteiro lindo, até mesmo para mim; mas mesmo no meio das músicas ácidas, da naturalidade, da fumaça de cigarro e do gosto de uísque, eu não pude deixar de me sentir em uma igreja, como se orasse daquela forma e ouvisse o silêncio surdo dos risos curtos, assim como um monte de beatas dizendo “amém” e “glória a deus”.

Eu estive internada em alguma religião, por esses dias. Amando a um deus ou a um diabo e recebendo em troca a paz, vinda com um anestésico que me deu um branco. Fiquei com medo de não conseguir pensar sobre o que aconteceu depois, já que não consegui pensar durante. Mas eu pensei, desta vez, sem pensar.
E de boca e cabeça fechada, estava orando. Só sentindo algum tipo de benção e agindo tão gentil e tão tolerante como nunca me vi.
Agora, isso me dá náusea e um vazio grande. Mas também um tipo estranho de alegria, que eu ainda não havia experimentado.

Acho que, mesmo de forma tão estranha, minha cabeça se abriu um pouco mais; e me fez entender - "entender" de modo "Tomé" - que a loucura e o caos são em mim muito mais do que arte.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Questão de Losterh, parte II



Cara, estou desprogramadamente apaixonada. Encontrei o cara com quem eu quero me casar, constituir família e reclamar da toalha molhada em cima da cama. Com quem eu quero ver graça no que há de mais imbecil e corriqueiro nessa vida. Com ele, que me faz celebrar a ansiedade, ter disritmia e perder os olhos dentro da minha cabeça pelas cenas em que é meu protagonista, mesmo que em uma visão mais ampla seja apenas mais um no meio de tantos.

O cara por quem eu aceito esperar, mesmo sem promessas, um celular tocando dizendo aquele “bom dia” alucinógeno, que pouco importa o “bom dia” em si; a sensação seria a mesma se a mensagem viesse em branco. Quem me causa tremor é o remetente e a informação de onde os pensamentos dele estão no momento.

Eu não tirei nenhuma foto e não guardei nenhuma quinquilharia simbólica. Mas já escrevi seu nome na agenda do meu celular, mesmo sem ter seu número; como quem já reserva um espaço que, mesmo sem nada combinado, é dele sem aluguel algum e também é dele como se fosse absurdo um dia ter sido de qualquer outro. E quando olho para aquele nome na telinha pequena, vou juntando as fotos para o álbum da minha memória. Onde eu as colarei a ferro, até que me rasgue a carne e forme uma cicatriz tão profunda quanto adorável e tão dolorosa e amável quanto uma fantástica lembrança sem presente.

E eu não digo nada sobre esta agonia, só agonizo como a mais panaca e timidamente apaixonada mulher que já houve. Que se apega no detalhe mais imperceptível, que se enche de dúvidas e anseios, como se o coração estivesse dando um nó pela abstinência avassaladora que eu tenho dele, que como uma alcoólatra se esquece de tudo o que houve naquele tempo perdido entre o abraço do cumprimento e o da despedida.

Eu estou terrivelmente apaixonada. Que eu o adore eternamente, ou pelo menos mais do que uma semana.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A arte de ser vunerável.




Não há como não ser influenciado. Pois mesmo quando não se é ator, é um câmera conivente. Formar opinião é elogio deformado.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A arte de ser simples, comportado e sóbrio. (Ou a grande utilidade de ser banana)


Oras, menino. Não se diga incapaz.
Pois tal qual é grande capacidade realizar obras, igualmente o é não realizar. Quanto você poderia ter feito e não fez? Também eis um grande dom, de se calar, de engolir, de se deixar sofrer e de relevar. Se todo o grande homem fosse assim por compor pagina de uma enciclopédia, seríamos todos a imagem da insensatez, do egoísmo e da megalomania.
Em outras palavras, ser uma banana e enfiar-se no proprio cu é vezes uma boa forma de ser um grande homem e de forma mais barata; sem panfletos, palanques ou testes de Q.I.


Viva a liberdade de ter opinião e não te-la como espada, afinal somos apenas bananas que temos um gergelim no lugar de cérebro quando, dentre outros, se trata de perceber as coisas.


domingo, 25 de abril de 2010

As flores de plástico




Ela nunca tinha se visto daquela forma. Foi um momento de loucura, de raiva, de euforia. Não era do caráter dela ter aquela postura, independente da gravidade do assunto.
Pelo simples fato de ser ela quem tomou as decisões de ser ou de não ser, aquela mulher se olhava como se detivesse o controle não apenas de si como de suas expectativas quanto aos outros.
Por um instante - ela pensou - eu achei que vi alguém que não era eu naquele reflexo. Aquela foi a forma de me defender do horror que era não possuir controle da situação.
Mas o horror não estava no descontrole, sempre esteve em seu gigante estojo de maquiagem, que lhe definia contornos que não tinha. Delineou os olhos por tanto tempo que não mais sabia o que causava aquele olho mucho que tanto tentava esconder. E de tanto se ver assim, acreditou fielmente na própria embalagem plástica; e quando o fogo veio de dentro, achou que havia se deformado toda.

Ela, instruída e independente, que sabia que havia tanta gente burra e ignorante, se descobriu gêmea de carne e sangue do mundo burro, cruel, egoísta e inocente.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Naturalmente,


Hoje fui descascada feito laranja lima.

Mania besta de pegar a faca e sair descascando em fruta, tem essa gente que não sabe escolher pessoas. Fica apertando, vendo se tá nem muito dura e nem muito mole. Depois, fricciona contra o espremedor, tentando obter o suco que não sairá.

Te aviso, anta. Não sou laranja.
Mas bem feito. Sofra com a ira do meu azedume.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Trejo Surra Brother

Essa foi boa.

Estava sem muitas opções na vida quando liguei a MTV. E tal estava o ócio que me propus a ver por inteiro um clipe do Jonas Brothers, "Burnin'Up", assim permitindo a entrada do demônio em minha casa. A surpresa foi, quando logo no começo do clipe, apareceu o mau-encarado-ultra-thrash Danny Trejo levando uns pedalas de um dos Chiquinhos Brothers.



Bem, com certeza o Zé Brother só tomou essas liberdades com o mexicano from hell porque ainda não conheceu Machete. Que pega as mulheres e mata os caras maus. E nada emo, no melhor estilo Manowar. He!




sexta-feira, 5 de março de 2010

A alma mais independente do mundo




Ele, que é independente demais para ter nome, decidiu assim para que não depender de ser chamado para ir ou vir. Também decidiu não ter sobrenome, para que não exista um grupo que dependesse de carinho e afeto - muito, muito menos, de justificativas.
Ele que demole sua casa, rasga seus livros, queima suas roupas e tem a ele mesmo como seu próprio deus. Que redefine as leis da física e medita em cima da caixa de som (feita de suas costelas) na sua própria turnê heavy metal (a turnê, de um homem só).
Que deflora a mulher mais linda, que ele mesmo pare. Que come doce, do qual seu próprio sêmen é o açúcar, a gema, a farinha e os demais ingredientes.
Que de seus cabelos provê a mais inebriante das drogas. Que é traficante de si mesmo, é seu próprio puto, sua própria vergonha, sua própria mãe, pai e filhos.
Ele, que é tão livre, que tem um infinito só seu pra se prender.

Ele, que corre tanto que é o próprio campeão de sua maratona, na qual corre sozinho. Sem ninguém para lhe oferecer um copo d'agua.
Que toca violino, violoncelo e contrabaixo feito de seus dentes. Que abraça todas as causas carentes do seu mundo só, tão colorido e vazio quanto se possa imaginar.

A alma mais independente do mundo. Entre quatro paredes, quatro polos; andando sozinho no meio de multidões.

A perda.




É muito difícil trabalhar com fatos. Demora um tempo para que se absorva algo que não é variável, ou ao menos que não será por muito tempo. Talvez isso se deva a inalação constante de mudança.
Às vezes, eu acho que tenho muito pouco, mas me sinto confortável com o que tenho. Quando de repente, aquilo que possuo me despeja e então fico na rua, no frio.

Reconstruir-se é tão necessário, mas é quase cruel. Principalmente quando se faz a terrível comparação entre presente e futuro. E pior do que não ter mais o que já fez tão bem, é saber que aquilo ainda existe, mas nem mesmo aquela própria coisa pode ofertar o que um dia ofertou. E então, as probabilidades de se viciar de hábito, de repente, parecem menores e perturbadoras. Mas é importante aprender que roupas bonitas ficam velhas e pequenas, que a lente do óculos começa a ficar fraca, que o bonito batom acaba, que as tatuagens ficarão incoerentes.

E aparecem as rugas, doenças, pessoas morrem e sentimentos também. E mais importante: fatos acontecem. E esses fatos são como novas peças no quebra-cabeça, que se infiltram no jogo e não permitem mais que você se encaixe com aquelas peças com quem estava tão acostumada.

Hoje, eu vi o traficante. E ele me ofereceu um pouco daquele delicioso hábito.
E eu, com as mãos trêmulas, disse não.

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