O perfume era de lavanda, do desinfetante que grudou no coro de tanto limpar os azulejos da casa. Ajudava a mãe, fazia compras no mercadinho e escovava os dentes após qualquer coisa que mastigasse. Nunca teve tempo para estudar, nem que fosse o horóscopo. Tinha mania de lavar as mãos e tomar remédio pra tudo. Não andava sozinha pra lugar algum que não desse pra voltar a pé. Era cafona.
Mas era linda, ah se era.
Vestiram-na melhor e colocaram um óculos. Líder, revolucionária, talvez capa da Playboy.
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Rafael, parte I

Olho vivo, medo pelas tatuagens que fechavam os dois braços. Alguém poderia se ofender com uma delas. Enquanto passava pelas jaulas, via as retinas de análise dos presidiários entre a janela de grade da porta de ferro. Tinha que escolher um daqueles lugares para ficar e, como orientação, só a sensação de que não era bem-vindo, assim como nenhum outro ali.
Decidiu parar de tentar escolher dentre tudo o que não queria e parou frente a primeira porta que viu. Ele parecia tão frio quanto seus nervos estavam quentes. Abriram a porta. Olho no olho. Ele sabia que a conversa devia ser curta e reta, sempre; que não podia usar das ironias que tanto gostava, que suas piadas podiam soar mal. Não ia poder dormir em qualquer lugar e nem se apresentar de qualquer jeito.
- Licença.
- Tire o sapato. Você fica ali.
E viraram a cara. O que falou com ele devia ser o faxina, que é o cara eleito pelos presos do barraco pra representa-los e também juízes, em alguns casos. Esse faxina logo ia verificar porque que ele havia caído.
Era tenso ficar calado, mas não havia nada a dizer. E teve a certeza de se manter calado quando viu a expressão satânica de um cara encostado do outro lado do barraco, olhando pra parede. "Assassinato", ele pensou. Alguém com aquela feição só podia ter uma lista de mortos nas costas.
Aí, pensou no seu crime. Extorsão. Ele ficaria pouco tempo ali, enquanto aquele cara deve ter anos de mofo pra cumprir. Enquanto aquele cara não tem mais nada pra perder, ele tem poucos anos e menos ainda se comportar-se bem. Mas poderia provocar a raiva daquele demônio saber que Rafael passaria poucos anos ali, enquanto ele continuaria a apodrecer lá dentro. Rafael poderia morrer por causa disso.
Ficou mais assustado ainda quando ao lado do assassino viu uma latinha amassada, com um furo. O cara fumava pedra. Perdido nos pensamentos, olhando sem olhar para o cara do outro lado, o demônio percebeu. Virou a cabeça devagar na direção de Rafael e encarou.
De súbito, ele percebeu para aonde estava olhando e deu um breve vacilo: trimilicou o olho e entreabriu a boca. O satã sorri de canto, levemente. Em breve, iriam conversar.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Intelectuais ou Eleições, parte II

Acordou no vômito da cerveja de ontem. O outro, com a barata se enlinhando no seu cabelo.
y - Cara, isso sim seria algo que me daria tesão.
x - Ah, mas tem que ser algo muito bem feito.
y - Eu já cheguei até a sonhar com isso, sabe?
x - Haha, tô ligado.
y - É sério! Eu fiquei um tempo com uma mina que trampava numa fita dessa aí. Ela me falou todos os esquemas. Eu sei fazer, só não tenho coragem.
x - Ouvi falar do dois por um. O cara escolhe várias jóias pra ver, compra uma e rouba a outra.
y - É. Mas tem que saber conversar com a atendente, passar pose de quem tem grana, saca? É mais difícil ainda se não quiser pagar pra comprar uma. E mais vantagem, claro.
x - Cara, vou te falar uma coisa: se quer mesmo fazer isso, estude. Estude porque senão, você roda feio. Ser ladrão não é só chegar achando que dá pra meter a mão. É ser acima de qualquer suspeita. Pra isso, tem que estudar as pessoas, o local...
y - É, não é mesmo fácil. Tem que estudar a melhor forma de falar. A vítima é nosso cliente.
x - É meio o que cobram de você nas empresas, né? Persuasão e estudo do trampo.
y - É, pra ganhar R$510,00 por mês
x - Esse povo acha que a gente é otário, né? Sabendo as mesmas coisas, a gente tira mais do triplo dessa merda.
y - Ô faz um tiro fiado aí, mano
x - Faço nada, tá foda.
y - Pago as cervejas, tenho mais uns 7 conto aqui.
x - Assim pode ser.
y - Tenho que voltar cedo pra casa. Tenho que estudar, véio. Vou fazer essa fita aí até esse fim de semana.
x - Hoje você fica aonde?
y - Achei um hotel legal lá pra cima. Com hidromassagem.
x - Pô, boa sorte, cara. No próximo domingo, a gente dá um churrasco.
y - Não, na quinta. É quando esse povo otário tá trampando.
(Losterh - Dignidade custa barato.)
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A arte de tentar ser menos idiota, parte II

0- Oi?
1- Nossa você, velho! Há quanto tempo!
0- Pois é! Passou de uma hora que não nos falávamos! Cheguei a achar que... você sabe.
1- Sei?
0- É. Você tava online no MSN, não falou comigo.
1- Ah, eu estava fazendo outras coisas, sei lá.
0- Ah, sim. :D
1-Mas como você está, cara? Novidades?
0- Não, nada. A rede tá meio parada. Ninguém atualizou o Orkut com nada interessante. Mas eu atualizei meu blog, :D
1- Ah, legal. Você gosta mesmo de escrever hein?
0- Você sabe como é. A gente não escolhe a paixão por escrever, ela é quem escolhe a gente. Quando a gente é diferente da grande massa da população, sabe? As pessoas não entendem o que a gente diz, mas nós as alertamos mesmo assim.
1- Ah, bacana
0-...
1-Que foi?
0- Ah é. Não te passei o link do meu blog, né?
1- Ah, eu tenho aqui.
0- E você gostou?
1- Não li ainda cara. =D
0- Porra, mano! Olha lá! A gente se preocupa em fazer um texto legal
1- Mano, eu estou fazendo outras coisas, não vou ver seu blog agora
0- E vem esses caras e ficam dando calote no nosso blog. A gente vai lá, comenta no deles uma coisa legal, mesmo que a gente não goste ou não leia e eles dão o calote. Nem seguir eles seguem, já que não quiseram comentar
1- ahn, você tá falando disso?
0- ...porque você tá desfazendo do meu blog? Eu sei que você gosta de ler, lê quase tanto quanto eu. Porque não quer ir lá comentar?
1- Porque porra cara, eu realmente estou fazendo outras coisas e mesmo que não estivesse eu não ia ler a merda do seu blog. Nem comentar naquelas suas fotos escrotas de Orkut querendo parecer intelectual com livro na mão. Você nunca gostou de ler, só sabe ficar pagando sapo pros autores fodas. Escreve mal pra caralho e acha que porque você escreve sobre política, manipulação, religião e outros assuntos “cool” você faz parte do grupo inteligente e não alienado que há no mundo. Acha que porque decorou uma frase lá do Sartre você se diferencia do resto da população brasileira. Se deixassem, você colocava isso no seu currículo. Fala de manipulação e é manipulado por quem nem conhece e nunca leu. Você escrevendo é um saco, não consigo ler tanta prepotência junta. Pior ainda quando tenta fazer poesia, você não sabe fazer aquilo, merda, é difícil! Mas claro, deve ter quem goste, mas não sou eu, então não me encha o saco com essa porra de blog de novo
0 – A inveja é mesmo foda. Só porque eu tenho luz você fala essas coisas. Nunca vi nada publicado seu, então duvido que escreva melhor que eu. Acho mesmo é que você não entende o que eu escrevo e fica a tarde inteira assistindo rede globo (1 parece estar offline. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar). Você é um conformado com o sistema, não faz nada pra mudar, fica engolindo as mentiras das revistas e não sabe tratar de um assunto sério. Olha lá, um cara comentou no meu blog. Ele disse que eu explanei bem o tema e que vai me seguir. Você acha que isso acontece com qualquer um?
1, enquanto desconecta, pensa que ele mesmo anda escrevendo mal pra caralho.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Mateus

Porra, já era mais de 1 da manhã. E junto já era o ônibus pra casa, o metrô e a cama fofinha e receptiva. Não se sentia bêbado, se achava até muito lúcido, mas já era o terceiro copo que quebrava e a quinta vez que se esquecia do degrau do bar. Os amigos já estavam falando menos e circulando mais. Ofendido, ele também se fez de difícil e saiu de perto. Foi ao banheiro. Sentiu-se sóbrio por lembrar-se de lavar as mãos e só então percebeu uma boceta aberta no seu braço, saindo sangue e manchando a camiseta. Nem sabia onde diabo tinha feito aquilo e só agora que olhara é que começara a doer. Ah, era melhor voltar para casa, antes que alguém o percebesse bêbado.
Ainda bem que não tinha que trabalhar amanhã. Fuçou os bolsos e quase se virou do avesso pra encontrar uma moeda. Nada, nem quinze centavos do cigarro solto. Só um espirro de paranga, enrolada num papel. E enquanto bolava andando, de soslaio viu uma luz vermelha. Que bom, iluminou um pouco e dava pra ver melhor o que estava fazendo. Parou pra continuar o serviço e junto com ele, parou a viatura. Mateus, que não se achava bêbado, malacamente amassou o papel parangado e desceu goela abaixo do bolso.
-Encosta aí, alemão!
-Tem droga aí?
-Não senhor.
-Levanta as mãos e fica de costas!
-Eu não tenho nada, só perdi o ônibus pra casa...
E o bolso vomita o papel
-E o que é isso? – coronhada
-Eu esqueci, senhor
-Qual é seu nome?
-Fulano.
-Eu só não vou te levar daqui porque tenho mais o que fazer a perder tempo com vagabundo. Some daqui e vê se não faz mais besteira, vadio!
Leva chute e toma mais uns tapas. As pessoas que passavam por perto se afastam. Umas, do outro lado da rua, ficam olhando. Acabada a represália, os policiais voltam pro bar lá de cima, pra continuar a cervejinha que a ronda interrompeu.
Pensando e inventando um dicionário de palavrões, sem paranga, sem cigarro e sem dinheiro ficou lá, quebrado e cansado. Mas não ia dormir na rua, podia aparecer aquele povo que gosta de tocar fogo em bêbado e os caralho. Então, foi pro Parque Dom Pedro II, com resto de grana que restava do seu bilhete único¹, para dormir dentro do ônibus que vai até o Sacomã, pelo Fura-Fila². Chegava no final, voltava pro início. Foi e voltou umas quatro vezes, até que desse o horário para que pudesse ir pra casa. Nesse rolê, quase foi apanhado de novo. Mas era muito tarde, deixa pra lá.
Ah, finalmente, o horário do ônibus que ia pra sua casa. Mas não tinha mais nada no bilhete. Ainda bem que, apesar da vergonha que o cobrador o fez passar, deu passagem a Mateus e seus 38 anos por debaixo da catraca.
O alemão chegou em casa, deu um beijo na mãe que dormiu no sofá e foi desmaiar. Não sem antes vomitar. Teve que dormir torto por causa do corte que tinha no braço.
Mas beleza. Amanhã é um novo dia e haverá almoço na mesa.
¹cartão paulistano que permite pegar até quatro conduções em determinado tempo, pagando por uma.
²Projeto idealizado por Maluf, iniciado por Pitta, mudado de nome com a Marta e depois com o Serra, que tem como objetivo ligar duas regiões distantes fazendo integrações com pontos importantes. Nenhum deles concluiu a obra - embora o Serra tenha sido o único a trabalhar por ela, apesar de 11 meses após o início do mandado - e o Fura-Fila já chegou a gastar R$675 mi parado. Os ônibus são remanufaturados e não vem com a metade do serviço que foi prometido nas propagandas, desde o Pitta. Estima-se que a obra, iniciada em 1996 e prometida para 1998 por Pitta e depois para 2004, pela Marta termine na promessa do Serra, para 2012.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O menino cujo passado não condena

Ele andava com a cabeça tão baixa que quem o via achava que tinha algo de horrível pra esconder do mundo. Mas só o que fazia era ouvir LP’s do Grateful Dead de tabela do pai e aulas de inglês e de piano. Tinha uma casa modesta, mas bonita, com um gramadinho florido. Nunca foi estuprado pela mãe e as irmãs não eram estelionatárias. Jamais havia visto um mendigo. Tinha quase toda a coleção do Super Trunfo e sempre que seus pais podiam, davam a ele umas moedas pra comprar Dip'n lik. Não tinha um tio pilantra e nunca soube andar de bicicleta. Todo mundo caía tentando aprender. Moleque legal. E moleque tímido.
Cresceu um pouco. E daqueles que ele sonhava que fossem seus amigos, de longe ouvia gargalhadas quando falavam entre si de um passado cômico e se uniam mais quando este era vergonhoso e dramático. Eles entendiam de drogas e sexo. Alguns tiravam notas horríveis, mas eram tão espertos que era impossível achá-los burros. Andavam com a cabeça erguida e com os braços livres como se fossem pavões, exibindo sua aquarela de defeitos e vexames.
Não davam importância pra cantar o hino, mas discutiam bem política. Comiam toda sorte de tranqueira e não queriam tomar os remédios, mas eram atléticos e saudáveis. Tinham cicatrizes feias, a namorada os havia traído, o namorado as ofendido, foram repreendidos severamente e vezes diziam algo que não tinha graça – que era até muito imbecil – mas todos riam.
Esta foi a lição de sua vida e sem Dip’n Lik se tornou o mais respeitado dentre os bêbados. Ninguém podia falar nada dele. Das suas viagens, parecia que cada vez estava mais perto de esquecer o caminho de volta pra casa. Seu potencial enorme estava lá, comendo pedaços de vômito e chateado por ter aquela vida de merda.
2010, mais um dos anos dos novos junkies.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
O espetacular passeio de Joe Demilus

As estrelas da cidade são as luzes que Joe via do hotel vagabundo onde estava.
Tênis, calça, camiseta, corrente, cachaça, farinha.
Calça, corrente, cachaça, farinha.
Corrente, cachaça.
Sono?
Calça, corrente.
Tênis, calça, camiseta, corrente.
Muita cachaça! Calçada, roubado, sujo, urinado.
Vômito. Paranóia.
Acordado, medo.
Na quina surda da parede branca, o olho trimilicou e veio uma grande idéia:
o que diabos fazia ali, quem eram aquelas pessoas que odiava e o cercavam e porque não conseguia parar de falar bobagens.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Aline

Salto branco 15 batendo na guia, mão e cara colada no poste, com cara de doce menina. Era mulherão que nem precisava daquele vestido dourado parado a meia-bunda para chamar a atenção. A noite era quente, a rua tava fervendo, carrões passando na borda da calçada. Era a mulher mais linda da noite e nem era tão bonita assim. Tinha uma boca estranha. A rua era charmosa, o neon piscava em azul e vermelho. Mas havia tanta gente elegantemente extravagante que o cenário era cafona e vulgar.
Um farol do carro piscou e ela percebe pelos óculos caçador.
- Quanto é, vadia?
- Nada.
- Como nada?! Pra foder, fala aí, eu pago.
- Nada, já falei.
- Olha aqui sua vagabunda, eu não tô pra piada. Entra logo no carro que eu tô com pressa. Daqui a pouco tenho que pegar minha mulher.
Ela entrou quando ele abriu a porta de súbito, arranhando sua perna. Ele parou numa travessa da rua, estacionou o carro na fúria e mandou ela ir pra parte de trás do carro, ele mesmo indo.
Ela foi de uma doçura tamanha, chorando cada vez que ele batia e a xingava. Delicada como um papiro, sucumbiu. Delirava de dor e como consolo, só tinha a beleza da cidade que sem estrelas piscava suas milhares de luzes. Foi então que ele na fúria viu as lágrimas escorrendo pelo pêssego da pele dela e desacelerou. Não sabia se foi a forma que o cabelo dela estava badernado, o jeito da boca estranha aberta, o cobertor que ela fazia com as mãos, imaculada. Na fúria o homem se viu estuprando uma santa, de vestido dourado e salto 15. Na fúria, se apaixonou.
Desde então, todo dia era noite. A mulher era esquecida na casa das amigas. O carro foi trocado por hotéis, cada vez mais caros. Houve até passeio no parque. Chegou, enfim, o dia de comprar um pelúcia e falar de amor. Então, ela informou:
- Agora sim. No fim do outro mês, você vai me dever R$800,00
- Dever? Como assim?
- Senão eu sumo e não volto mais. Você agora me ama. E o amor vale mais que o tesão e uma trepada casual. Eu vendo meu amor e cobro pelo seu. Sou um código de barra e meu preço é este.
Coração, lágrima. Sofre, mas paga.
Raquel

Que sabia combinar cor, cabelo e tecido. Tinha muitos dentes no sorriso, tão pra fora que pouco sobrou pra dentro. Diretora, mulher, sexy. Acordou cedo para revisar o material que apresentaria na reunião. Chegou antes da hora, muito. Planilha, slides. Tela com a luz no talo. Daqui a pouco daria oito da manhã. Deu. Pelo vidro frente ao computador, viu ele passar devagarinho com suas poucas palavras. Instante, segue. Já fazia anos que tinha muito do que queria exceto daquele funcionário calado que não via sua exuberância. Sabia que ele ia tomar café, com o dedo forte abraçando a alça da xícara e a grossa aliança dourada. Ela era muito e ele nada. Mas o que era muito pra ela?
De manso, há anos ela já havia pingado a semente do joio na retina cega e no caráter vigoroso; seu perfume Channel era a bengala e guia do massagista. Infestado de sua falta de governo, disse então que a amava e que largaria a mulher e o filho que ela não queria, para ser feliz como nunca se viu. Figadal. Amanhã.
Tudo resolvido. Mas na verdade, não. Raquel tinha tudo o que queria, mas não queria tudo, ou não haveria mais nada a querer. Demitiu-o e ficou por ele apaixonada por todas as muitas vezes que se lembrava dele, de modo que não ficaria se o tivesse ao seu lado.
Anos depois o encontrou na rádio, cantando sobre a sífilis que ela adquirira aos 14 anos.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
A vencedora
Assim como a tal mulher, uma verdadeira heroína. Vencedora. Conseguiu a amizade de pessoas influentes, pedidos do homem que amava, ter quem queria a hora que bem entendia. Suas idéias foram engolidas, com casca e tudo. Convenceu que tinha talento, que poderia ser ideal. Porque quando achou que não ia conseguir, construiu a estrada em cima do rio, para chegar mais rápido.
Forçou o “eu te amo” quando era apenas “te gosto tanto”. Usou das conveniências para agradar, mas nem a queriam. Precisa coragem para isso, é uma heroína! Pois ela tem, no fundo de sua mente, a ciência de que se não fosse o mérito da ilusão, não teria conseguido nada por qualquer outro mérito. E assim, encheu-se de pescoços para mostrar suas medalhas, que se desfizeram com o passar do tempo.
Ela chorou, pediu sorrindo, fez charme, seduziu, envenenou, denunciou enfim, obrigou. Mas o que obriga não pertence. É aluguel. É só esquecer a chibata que se vê só com seu troféu de esperança; daquilo que sempre quis que fosse dito e feito, sem nenhuma coronhada sua.
Intensificou o fato, iludindo que aquele era o futuro. Mas não era. E tão depois, quando a verdade a olhou, no reflexo mostrou a decepção. Venceu mais uma.
Forçou o “eu te amo” quando era apenas “te gosto tanto”. Usou das conveniências para agradar, mas nem a queriam. Precisa coragem para isso, é uma heroína! Pois ela tem, no fundo de sua mente, a ciência de que se não fosse o mérito da ilusão, não teria conseguido nada por qualquer outro mérito. E assim, encheu-se de pescoços para mostrar suas medalhas, que se desfizeram com o passar do tempo.
Ela chorou, pediu sorrindo, fez charme, seduziu, envenenou, denunciou enfim, obrigou. Mas o que obriga não pertence. É aluguel. É só esquecer a chibata que se vê só com seu troféu de esperança; daquilo que sempre quis que fosse dito e feito, sem nenhuma coronhada sua.
Intensificou o fato, iludindo que aquele era o futuro. Mas não era. E tão depois, quando a verdade a olhou, no reflexo mostrou a decepção. Venceu mais uma.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Renata

A metade do dobro de si mesma. Saiu de salto porque era conveniente, mas nunca soube andar com aquele troço. E assim, logo a rua ficou disforme e as pernas nada sensuais. A tarde lucerna trazia desânimo, mas isso não a fez voltar para casa. O dinheiro estava apertado na mão, por conta das moedas recém encontradas nos esconderijos despretensiosos da casa. Mão, sorte. Chegou como quem não continha as novidades, sem novidade alguma. Ah, era aquela portinhola, no fundo do bote. Abre, vê. No último dos 3 caça-níqueis, sentado num banquinho com as costas de bengala, movendo a alavanca modernamente. Era exatamente a máquina do meio que não tinha ninguém. Senta, olha. Justo ele, não a reparou. Até que ela repousa a mão no ombro do moço e pergunta como joga. Ele ensina, prático. Sorri miojo e se vira de volta.
Renata coloca a grana. De novo. De novo. De novo. Não sai nada. De novo. Algumas moedas. O barulho chama a atenção, ela cruza as pernas e mostra o salto. Ele olha, automático. A perna brilhava da cera e a barriga do pé fazia uma bonita curva até a dedeira do sapato. Sobe; coxa, vestido, peito. Olho verde, olho preto. Bastava um sinal. Ela sorri, daquele jeito. Ele saca. Ela se inclina para falar no ouvido dele, aproveitando para assim deixar o decote como queria. O moço olha e sorri monalisamente. Ela fala que vai ao banheiro e pede que ele arranje alguém para reservar o lugar dela. Levanta e anda, cheia de rabos. Dá uma tropeçadinha na porta. Banheiro, entra, entreaberta. Olha no pedaço de espelho, espera.
Ele chega.
Em poucos segundos, lá estava ele de quatro e ela o comia com toda a força que sua falta de desejo podia. O salto se encaixou na borda da privada, ele tentava abafar o tesão. Ela goza, ele no chão. Ele pede telefone, deixa os dez reais em cima da pia e sai.
Ela nunca se engana. Janta um PF e volta pra casa. Amanhã é um novo dia.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
M.

M. Como Rebeca.
Que tinha dinheiro e era bonita, mas não queria ser burra. Gostava e queria a atenção de quem não gostava dela. Lia poucos livros, mas falava com a boca inundada de dentes sobre nome e autor dos mais renomados. Dizia que não via televisão, que detestava a globo, que era coisa para ignorante (e bem, cada vez assistia menos, mesmo). Sabia que não gostava do governo, mesmo que ela nunca houvesse de fato se sentido lesada por ele. Dizia que deus era coisa pra grande massa tola e manipulável. E nesses discursos nada brilhantes sempre tinha um espaço para as palavras “sociedade”, “grande massa” e “imbecil”. Afinal, na adolescência descobriu que ser xiita, esnobar os outros e falar de coisas que os outros não ouviram nem falar – mesmo que ela mesma soubesse nada ou quase nada sobre - é ser inteligente. E se não concorda é ignorante, mas ela dizia que não tem é argumento.
Acreditava em si e logo acreditaram nela. E por isso, em noite qualquer conheceu um grupo de bêbados, conhecidos por ter algo a dizer.
Mas é melhor não estender muito a idéia; debate a mil graus e se M. não leu nem ouviu, não pensa. Ah, mas ela é esperta: beija bem e paga uma rodada de tequila.
Chama sempre ela, chama sempre ela.
terça-feira, 27 de julho de 2010
O cotonete, Político e Apolo

Apolo
Que acordou com o sol na cara e a formiga pinicando o braço. Menor idéia da hora. Não estava com frio, mas deu falta do cobertor roubado. Levanta, tenta assear a roupa como pode, dá um jeito no cabelo. Fome. Vasculha a mochila, parece que alguém havia dado um pacote de bolacha. Mas nada acha, só o cheiro de suor da calça guardada com a água da chuva. Mochila nas costas, anda-te.
Acha uma bituca quase inteira no chão. Passa um cara fumando, pede fogo. Acende. Fuma.
Aquele restaurante, deve estar pra fechar. Estava. Já havia dado uma idéia outras vezes. Fala da fome, pergunta se sobrou algo. Marmita boa, massa com queijo e camarão. Come, come. Dá uma volta e pensa no que fazer. Dinheiro. Talvez cate umas latinhas. Já é tarde para distribuir panfleto. Anda, pensa. E então acha, em cima de uma mureta, seu cobertor, mas estão usando. Dormem. Do lado, tinha uma mochila. Pente, gilete.
Vai pro terminal, banheiro. Lava o cabelo na privada, dando descarga. Faz a barba. Melhora bem. Vê um conhecido. Conversa, tédio, cachaça. Ri, ri, ri.
Mas tédio.
Despede-se, vai manguear uns trocados. Dá uns reais, quase cinco. Acha páginas de jornal no chão e algumas revistas no lixo, na frente de um condomínio. Legal, caça palavras e cruzadinha. Bate o olho nas manchetes, coisa ou outra de interesse. De revista, coisas legais. Nunca havia lido sobre ufologia. Mochila.
Aquele bar, acho que já abriu. Gente conhecida. Soube que, no sábado, fulano morreu na facada. Pena, cara firmeza. No meio das pessoas, tenta ser agradável. Do que leu no jornal, faz suas sacadas. Ganha cerveja, chamam pra sentar à mesa. Faz uma ou duas boas piadas. Entende de música, joga sinuca bem, fala inglês, entende algo de cinema. – assiste e lê tudo o que pode – Não esconde como vive. Dó.
Pagam cerveja, pinga, lanche, cocaína. Oferecem até puta. Bonitinha até, mais se não fossem os dentes que faltam bem na frente. Viciada em crack, quer lugar pra dormir. Moído, mas é boa idéia. Ao menos tem onde ver televisão e tomar banho. Hotel, puta. Come, vê TV, dorme. Acorda no meio da noite, meio bêbado. Paranóia, paranóia. Precisa sair um pouco.
Quase cinco contos. Um maço de cigarros. Encontra conhecido, saquinho de cola, R$1,00.Nem tava a fim, mas fizeram tanta questão que pareceu indelicado recusar. Paga outro pro cara. Anda.
Um menino mangueia um cigarro. Outro. Uma menina. Outra. Cigarros pra todos eles. Homem vacilando com celular à frente. Rouba. Não vai fazer nada com aquilo, precisa vender. Mas não vai na cracolândia, vai dar vontade de paulada. Volta pro hotel, vermeolhando bichos, ele mesmo parecendo um.
Mas já é tarde, a puta havia ido embora. Tem fome, sem dinheiro. Volta pra onde achou sua coberta. Tá lá, sozinha. Enrola-se e dorme. Um dia de cada vez.
O cotonete
Tirou o que estava grudado no ouvido e ficava a fazer eco. Incomodava lembrar. Agora é feliz sabendo que pode se livrar de desagrado, sempre se livrando da mesma lástima.
Político
Eu verticalizei a cidade para caber mais eleitores. E prometo verticalizar as idéias para caber menos opinião. Obra, cimento. Prisão. Parede oca, sala vazia, mesmo tão cheia. Faculdade pra todos. Socialista – reforma agrária, só na margem. Saco da mesma farinha, amarra e guarda pro ano que vem. Lá dentro, tosse, gripe, morte, suicídio. Cria a miséria, para ter a problemática e então, ser aplaudido por boas respostas. O saco virou estado e país. Parece que todo mundo é a mesma coisa. Não só eles. Nós.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
28 aftas

O menino sempre teve muito a dizer e sempre disse tudo o que veio à cabeça. Até que foi tomado por uma doença que fez nascerem 28 aftas, espalhadas entre a língua, a gengiva, os lábios, o céu e as paredes da boca. Desde então, toda vez que a abria, sentia uma grande dor e ainda saia um fétido odor de pus. Por isso, foi obrigado a dizer apenas o necessário. Começou a passar mais tempo observando e pensando do que falando; e sorriu ao perceber quanta idiotice deixara de dizer.
Dessa forma, foi adorado e se sentiu sábio - inclusive porque todos os julgavam da mesma forma, afinal não fazia parte do necessário a dizer ser arrogante. Elaborou novas razões para o mundo, foi aplaudido e diziam que jamais haveria alguém como ele.
Até que o menino teve a mente e os olhos aprisionados por uma moça de cabelos longos, a quem a vergonha permitia de longe. Após muita angústia, finalmente se aproximou dela. Mas descobriu que não sabia o que dizer, afinal nada daquilo que queria falar era necessário. Era na verdade arriscado e humilhante.
Descobriu em sua cabeça um vácuo, mas abriu as cortinas para encenar para sempre suas poucas palavras, que não supriam tudo aquilo que sentia.
E assim morreu o gênio, burro e infeliz.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
O Coringa de Losterh

Era ela quem olhava para a rua como se olhasse da rua, pela janela, uma linda casa. Toda vez que passava por ela e via aquela grama tão verde, a pintura bonita e a telha tão marrom, sentia-se como se não pudesse ser mais incompleta nessa vida.
Foi então que brigou com os pais, se afastou dos velhos amigos e encheu o mais que pode sua garganta inocente de cerveja e vodka. Foi traída, roubada e enganada. Amou a quem não lhe merecia, foi amada por quem não queria, chorou de raiva e também chorou sem saber bem o porquê. Riu de toda falta de graça e descobriu novas piadas; Tentou mentir e enganar e descobriu que também podia. Domou a raiva e gargalhou da própria idiotice, jogou com quem não lhe merecia e enfim, foi amada por quem queria.
Quando a monotonia chegou e as calçadas já lhe doíam os pés e as costas, voltou para casa. E ela então descobriu quem era, aquela que ela mesma invejava. Finalmente percebeu como era cruel e hipócrita, que seu discurso – assim como todos os outros – não corria em busca da razão e sim em dar razão ao que sentia. E só nesse instante pode se livrar de um mau que não mais temia, agora conhecia.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
A felicidade integral

Fui tirar a maquiagem, estes dias. Estava disposta a tirar todas as impurezas da cara. Deu certo: nada restou do nariz, da boca e nem dos olhos. Cortei o topo da cabeça para começar a limpar o cérebro, mas a esponja de aço enroscou e não quis desenroscar, nem com fortes puxões. Então, logicamente, tentei dissolver a esponja com diabo verde e soda cáustica. Não demorou muito e resolvi o problema.
Pronto, estava limpa e pura. Agora sou filha de deus com o diabo, tenho tudo o que quero, almoço a verdade e a mentira e as engulo sem nem titubear.
Morri de sono e minha lápide não tem nome, nem flores. Mas eu fui feliz, integralmente.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
A arte de ser vunerável.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Abstinência

O Tiro de Ocitocina
Eu estava me escondendo dos seus olhos (que nunca havia visto, que nem sabia que existiam), cobrindo com as mãos minhas veias finas, que descreviam um caminho verde e torto pelo meu braço branco. Mas no meu esconderijo, você veio me buscar. Com suas palavras enfiadas na sua voz em seringa, meu ouvido foi se dopando, até chegar o momento em que a resistência era completamente inútil. Eu nem temi olhar a agulha. E nem temi a dor que ela podia me causar. Eu deixei e você injetou ocitocina na veia frágil. Então a lágrima escorreu, de medo.
Ah, posso tremer só de pensar naquela agulha. Sem aviso, sem álcool e algodão, sem dor. Só um ardor, que tomou meu sistema nervoso e me fez querer beijar o vício, por uma longa data. Que coloriu o escuro dos meus olhos daquelas cores psicodélicas.
Mas eu sei que não há cor. Eu sei, não há cor.
Mas o que é saber, quando o olho vê e as pernas tremem? Quando o sangue se agita como um bicho preso, dentro d'alma?
E no bilhar, eu erro outra tacada. Vejo você, de longe, ofertando minha droga, sujando a agulha que foi minha - e sinto, ainda é. Me doando essa abstinência que me inquieta, mas que é necessária.
(Some, seu verme, que não te quero.
Some, seu verme, que eu vejo que não se importa.
Mas volta depois e pede desculpa, diz que era mentira e me fura com essa agulha. Diz que ela nunca deixou de ser minha)
É.
O tempo passa e você nele pega carona.
Mas o rastro deixou aqui teu cheiro, aquela mistura de vícios que quase lhe pertence. Quem é você, afinal!
Já eu, eu sei quem sou. Alguém que se viciou em todas as suas faces, que tenta te tabelar, longe de quem te fuma;
E que procura cada vez mais pensar, para esquecer o que foi te sentir.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O Acorde de Sampa.

- Isso. Junte as duas mãos, dobre teus joelhos, abaixe tua cabeça.
-Assim não, criança! Abaixe mais! - empurra, com força, a cabeça da criança para baixo, fazendo-a cair de cócoras.
- Agora reze, moleca demoníaca. - diz frio, o mesmo homem - Agora reze a primeira reza que você souber, antes de eu meter essa bala na sua cabeça. Está sentido esse cano frio, no meio da sua orelha? ESTÁ? RESPONDA!
Ouvia-se apenas um coraçãozinho acelerado, tremendo junto ao chão da igreja. A menina sabia que devia responder com alguma oração, mas nem do pai-nosso ela se lembrou. Não conseguia pensar em Deus, nem nos pais, nem nos amiguinhos da escola e nem no moço que acabara de matar. O dente doía muito. Devia ter, dentre tantos socos que tomou, levado um certeiro na boca, do lado esquerdo. A lágrima caiu mais forte quando não sentiu apenas a dor. Quando também viu a pocinha no chão.
Ainda muito trêmula, usou de uma força que não tinha para se erguer um pouco mais. E saber que ainda podia se erguer, nem que fosse pouco, a encheu de raiva e de coragem.
- Matei, senhor. Matei, com a arma que agora está na sua mão. Peguei, me escondi atrás do altar e quando ele chegou perto, atirei. Nem sabia o que era atirar ou o que era matar. Agora, eu matei. E se eu errei o tiro, vou lá e mato de novo. E de novo. E de novo. - disse a menina, de joelhos, com os olhos de fogo encarando o homem e o cano da arma.
- Comece a rezar! - e agora vem, um novo chute, na barriga, para recobrar a menina sua posição de desvantagem. - Comece!
A dor salpicava pelo corpo inteiro. Com o chute, se ouviu o baque; ela se estatela, no chão de pedra e corta a cara. Cospe mais um punhado de sangue. A visão está mais escura.
- Reze! - Puxão de cabelo para cima e a devolve ao chão, de súbito
a menina não sabe rezar
-Vamos, menina! - a chuta, empurrando-a escadinha abaixo
a menina rola e só vê imagens. ela não ouve, ela não diz. ela não reza.
A arma apontada nada significa. O córrego de sangue, a ânsia da dor, as imagens se movendo sem aviso, a mãe e o pai do outro lado, babando sangue no chão.
Não muito longe, a menina vê a arma abandonada, perto da primeira fileira de assentos, razoavelmente escondida. Talvez ainda dê para pega-la.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Nada efêmero ano novo

A menina caminhava pela rua morna, tranqüila, deslizando pela calçada inclinada da rua cinza. Ia com uma sacolinha às mãos, sonhando com a hora em que iria encontra-lo, um pouco mais ao fim do dia, quase lá pelas onze da noite. Era dia 31. Via as pessoas em correrias, para acertar os detalhes finais da ceia de fim de ano.
E ela, sentia quente a mão ao segurar a sacolinha, que guardava uma pequena lembrança; só para que ele soubesse que ela se lembrou dele, que se importa. Ela sentia que era correspondida, pela atenção que ele lhe prestava, pela forma como lhe falava. Sempre pareceu sincero, por mais que ela já houvesse tido cólicas quanto a isso.
Mas dessa vez, não haveria porque se enganar. Gostavam mais ou menos das mesmas músicas, achavam mais ou menos as mesmas coisas efêmeras; as piadas tinham o mesmo tipo de humor. Ela achava o máximo ele adorar ouvir seus comentários sobre arquitetura, esculturas e sobre as memórias que tinha. Ninguém era como ele. E esse fato deixava o coração trêmulo, com o passar da hora, que se arrastava pelos minutos.
Após tanta espera, tantas frases elaboradas para tentar dizer o que ainda não havia dito, após reconferir a maquiagem tantas vezes e arrumar os cabelos, os olhos viram ele chegar.
Completamente bêbado.
Ela não se importou muito; em breve, se ele parasse de beber, estaria sóbrio. E aproveitaria os fogos de artifício junto dela. Ainda estava com a sacolinha nas mãos, mas ele nem percebeu. Ele ria alto demais, tentava agarrar a menina, fazia as piadas erradas com pessoas erradas. Até que, em um dos agarrões, ele pareceu que ia beija-la. Mas não foi assim que a doce menina havia imaginado. Não, não era assim. E assim, ela não queria. Assim, ela tinha medo.
E foi neste medo, a um minuto de badalarem os fogos no céu, que ela o ouviu bebamente dizer:
"Por que você não deixa o temor de lado e aproveita enquanto está em vida certas coisa que são efêmeras? Tudo é efêmero! Fodam-se as memórias, foda-se a história, foda-se a arquitetura, a tecnologia, as esculturas e os logradouros; tudo isso ficará para baratas, que em vao são mortas a pisões! Menina, eu queria saber quem é você, mas não tudo sobre você. Tudo pra que? Basta o suficiente para um dia te beijar, meter e dormir num hotel. Não, não dormir, meter. Meter a língua na sua boca, meter o pau na sua buceta, meter a língua em você, te banhar. Me lavar e meter a língua na sua boca, brigar, briga de língua e só!"
E então, rasgam os fogos no ar.
Sorria, menina. Feliz ano novo.
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