quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Megalomania
Eu sempre tive uma sensação de que o mundo é meu e que se eu realmente me dedicasse a qualquer coisa, eu poderia conseguir. Em algum momento. Claro, esse é um pensamento megalomaníaco que não tem efeito prático em totalidade, mas parece que o simples fato de tentar é uns 70% do caminho. Porém, a visão a que temos acesso do horizonte, de onde podemos ir, marca muito uma pessoa. As referências que adotamos como realidade podem nos ajudar a construir ou nos destruir completamente. Cada um sabe dos próprios infernos e como determinadas situações podem tirar nosso ânimo ou nossa convicção; e cada um lida de forma diferente com isso.
Existe uma sensação, quando se age de forma muito irresponsável, onde o cérebro logo acha uma justificativa pra dizer que aquilo não daria certo mesmo, que nem havia grandes expectativas, então foda-se tudo. Esse foda-se amacia a queda e nos coloca em um papel de autonomia e controle da situação. Mas a real é que, por mais que muitas vezes seja muito difícil, boa parte do caminho é não desistir das coisas. Começar e ir até o fim. O que me leva ao pensamento de que boa parte de tudo seja começar coisas. Se comprometer. Iniciar idéias e mesmo que de pouquinho, ir sempre desenvolvendo ali. Não abandonar, não abrir mão por idiotices.
Todas as suas razões, lamentos e dificuldades podem ser totalmente genuínos, mas se eles te levam a desistir de algo que é construtivo para você, sua razão não está agindo a seu favor. O fato é que toda dor é válida, as lágrimas são vaĺidas, ninguém pode tirar a realidade da nossa dor. Porém, a nossa dor não faz o universo ter pena de nós. Não há ninguém para te salvar, assim como com certeza, você também não está salvando ninguém (mesmo que acredite nisso). Alguém até pode te ajudar, mas a coisa só funciona mesmo quando você entende que precisa seguir em frente a qualquer custo. Não quando você decora um caminho, uma fórmula, quando você realmente entende que precisa seguir para ter paz. Então há uma responsabilidade individual de que, para aplacar uma situação ruim, é preciso fazer o óbvio: sair dela.
Apesar de óbvio, muitas vezes a teoria é muito mais simples do que a prática. E o entendimento sobre isso começa no início desse texto: em iniciar coisas necessárias e não desistir delas. Mesmo que dê errado ou muito errado, boa parte do caminho é seguir em frente até passar a linha de chegada, independente do tempo necessário para isso. E inclusive, já pensando no tempo, o quanto antes começar, melhor. Outro dia vendo algo sobre a animação de X-Men 97. Fiz uma associação com um personagem e minha cabeça ficou divagando nela. Sobre a habilidade do Noturno. Ele consegue se teletransportar para outro lugar, contanto que ele saiba para onde está indo, que já tenha visto esse lugar. É mais ou menos isso. Podemos chegar, mas precisamos saber que aquele lugar existe. Sem nem saber, sem nunca ter se imaginado lá, parece que é apenas um lugar que existe para os outros, algo que se ouviu falar em terras muito longe. Muitas pessoas não se vêem onde poderiam ou gostariam de estar, porque sua realidade é dura e imediatista, estão sempre apagando incêndios e fica pouco tempo ou condições para arquitetar soluções duradouras. Assim como outras pessoas tem todo o potencial e condições para chegar em seus maiores objetivos, mas o fato de não se enxergarem lá as amarram em suas realidades como se presos ao chão por um cimento. Nós não começamos dos mesmos lugares. Então temos que entender logo cedo a dificuldade que teremos e já ir, mesmo que muito devagar, andando em direção ao horizonte. Se até pessoas como eu, que não tiveram privações sérias na infância e que são confiantes, podem após períodos difícies ficar com a visão curta em algum momento da vida, imagina então quem teve essas privações.
Tem também que a pouca idade nos concede uma sensação de poder. Vinte anos demoram muito para passar. E dentro deles, há uma sensação de juventude eterna. Uma sensação de que tudo pode ser recomeçado sempre, então permanecer ou não, não faz muita diferença. É possível achar outro emprego, é possível fazer o vestibular no ano seguinte, é possível morar em um lugar melhor alguma hora, é possível beber menos em algum momento, é possível melhorar a situação financeira algum dia. O horizonte é uma névoa. Em algum momento acontece.
Existem estudos que duraram décadas, guerras que duraram séculos e às vezes o que a gente precisa fazer é resistir por uns cinco anos. Mas muitas vezes a gente não se vê lá, conseguindo. Porque a gente não está se vendo ali, nem alguém parecido, nem próximo. Quem está lá sempre parece estranho e suspeito. E é um trabalho mental entender que, talvez, às vezes precisamos ser megalomaníacos para enxergar fora do limite que estamos vendo. Ver o horizonte é uma megalomania para o louco, para a vida difícil, para a dor genuína, para psicológicos quebrados.
Algumas sensações são muito especiais. A de concluir um objetivo, talvez seja das mais especiais para mim.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Agente duplo
Me pergunto quantas vezes durante a vida uma pessoa é um agente duplo. Quantas vidas é possível viver em uma. Quantas pessoas pode-se descobrir dentro de si mesmo e conseguir conviver com elas. Há quinze anos atrás, talvez eu abriria uma cerveja agora. Mas hoje, eu sinto ausência. Ainda fechando os olhos e ouvindo o barulho dos carros a noite, como antes. Mas, em minha própria presença no escuro, me sinto ausente. Havia um sentimento entediado e desanimado que estaria aqui agora, mas ele não está. Ele envelheceu? Ou ele se transmutou e virou nada. Eu consigo ouvir as palavras de Schopenhauer agora. Realmente estou ouvindo agora. Não há nada aqui. Nem uma grande exaltação, nem uma grande melancolia, uma gargalhada interna mal intencionada que me levava a escrever.
E esse sentimento não é um vazio. Não tem nada aqui que esteja melancólico, ao menos não de forma evidente. Eu preciso acordar cedo amanhã. Eu tenho coisas a perder e curioso, eu não perdi. Eu dei mais um passo quando eu largaria tudo e abriria no facão outro caminho no mato. E depois, dei mais outro passo. E mais outro e mais outro. E mais outro. Cheguei a conclusão que sou boa de cálculo. E agora uso muito menos meu facão.
Eu consigo ainda olhar para dentro. São novos tempos, agora os olhos estão sempre em uso. Sempre ocupados em adquirir todo tipo de informação. Tem informação demais. Palavras demais. Coexistimos nos palanques uns dos outros, nas desgraças uns dos outros, nos melhores angulos uns dos outros. Porque é útil, porque é a forma mais esperta de fazer as coisas. A esperteza já nos levou a lugares mais interessantes.
Eu olho para tudo e consigo respirar. Eu escrevo agora e vejo como é diferente respirar escrevendo. Eu me li agora pouco e entrei em máquinas do tempo, em agentes duplos, triplos, quadruplos. Eu estava tentando sobreviver e sobrevivi. E não sinto nada.
Porém, conforme escrevo, sinto que aquilo vem voltando. Como um reencontro de um amigo muito antigo, que nada muda independente do tempo separados. Ligar o interruptor do lado de dentro dos olhos em ceratite. Uma luz de uma lamparina morna, que não toma o escuro e sim se mescla com ele. Que toca as sombras dos objetos com uma paz intransponível e indivisível. Somos desde sempre e em ser, somos muitos. Muitas vidas, muitas mortes. Mais uma morte, um chá a meia luz. Encontrando não todo um contexto passado, mas em quais furos essa linha passou costurando tudo.
domingo, 10 de maio de 2026
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
Dados
Eu tinha uns 15 ou 16 anos quando apelidei caminhões de dinossauros.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
Prática Isolacionista
https://www.youtube.com/watch?v=0YOXsll6t2Y&list=OLAK5uy_luKYwT9byNqnbXKZ_sHtftqVB57gT-OL8
A luz de fora entra por uma fresta, presto atenção na minha respiração. Eu realmente vivo apenas por agora
Olho a minha feiúra pelos espelhos quebrados. Mesmo agora, com os cacos juntos, a cola é parte da solução e do problema
irreversível
Eu encaro a minha feiúra com paixão, deformada e destruída
Fragmentos que se uniram como laçados por chicote de ferro quente. Meu rosto queima e então eu respiro. Eu parei de pensar e segui a diante. Abri agora essa lata encaro minha feiúra no escuro e me reviro por dentro, para tocar sentimentos que só são possíveis de serem sentidos isoladamente. Gritaram e eu não ouvi o mundo. Sinto, simultaneamente, a minha estupidez, a minha arrogância, a minha verborragia tentando conectar palavras que se aproximem disso que eu eu preciso revisitar, de duras criticas ao externo que descrevo referenciando a mim mesma, o monstro bizarro que compõe o que me tornou o que enfim, estou. Eu parei de realmente escrever - as palavras que não são para serem lidas - para tentar não me odiar, para focar no que eu tenho de melhor que é essa cicatriz horrenda que me conecta e me dá sentido. Eu não encontro passos noutros caminhos. Eu respiro agora, eu respiro por meio de palavras, eu respiro no escuro. Eu sinto o vento e encosto em monstros de olhos fechados. Eu, em minha megalomania ridícula, corro pelo vazio nas florestas engalfinhadas da minha própria cabeça como deusa de um universo doloroso e apocaliptico.
amanhã é um grande dia. e eu não posso realmente ter um grande dia sem ter você. meu maior amor, meu demônio, minha deformação profunda, meu defeito, minha estrada interna, invisível e solitária.
sábado, 4 de junho de 2022
Monge
As mãos estão grudadas no vácuo. Vazias. Como se aguardassem algo que pudessem ter na palma da mão para destruir.
Seu colar estava no chão, no mesmo azulejo, havia três semanas. Seus pensamentos corriam como corcéis no escuro e conseguiam meditar apenas no barulho que a geladeira fazia de madrugada. Seu sono diário estava em torno das 3 horas. Escrevia na penumbra, escrevia nos cantos do crânio, nas memórias antigas, como amaldiçoada por Calíope. Não conseguia parar de pensar. As ideias tomaram conta do ambiente e destruíram o chão onde podia pisar. Das pessoas queria apenas as palavras e as imaginava como se fossem sem rosto e sem corpo. Perseguia os pensamentos como presas, um leopardo noturno em argumentos insones embreagados por xícaras de café, de chá, de cappuccino, até que um a um se esgotasse. Levantou e tomou dois pratos rasos de sopa e com eles viveu dois dias. O aluguel estava pago, mas a casa que estava morando era a própria mente. O pequeno espaço era um depósito de ossos. Mas precisava do som da geladeira, no silêncio da madrugada. O único momento de repouso daquele corpo estático.
sexta-feira, 27 de maio de 2022
Social
Estreou um filme novo. A atriz principal era belíssima e parece que o filme era bom. Aquilo ia pegar. Já foi olhando o orçamento do mês: afinal, aquela mulher era muito diferente dela mesma. O cabelo era maior, o olho era mais escuro. Fazia uns quatro meses que aquela atriz loira do cabelo no ombro era o momento e que tinha feito todos os procedimentos para ter o rosto idêntico ao dela, como todas as outras mulheres. Mas parecia fazer muito tempo. Nem lembrava o nome da atriz, inclusive.
Essa de agora, Milene Denueve, tinha as bochechas mais cheias. A anterior tinha um rosto mais marcado e cadavérico. Havia se recuperado realmente bem de retirar as bochechas não fazia nem duas semanas.
Ah, mas ia esperar mais um pouco antes de fazer uma nova cirurgia. Ia ficar um pouco fora de moda, mas ela não era como essas outras desesperadas aficcionadas por tendências. E também havia perdido o emprego a pouco tempo. Ia curtir um pouco mais a nova aparência, depois entrava na faca de novo. Doía, mas era sempre recompensador. Sua imagem diz quem você é, todo mundo dizia isso.
A amiga mandou um holograma, com a foto de Milene. Era realmente bonita. Um novo recorte de rosto, nunca tinha visto. Diziam que com ele era possível respirar 30% melhor e mais um monte de outros benefícios que não conseguiu decorar, mas lembrava que eram vários. Ficou ansiosa. A colega disse que tentou combinar de marcar a clínica para o dia seguinte, mas não dava. Tudo lotado, não daria para adqurir a nova face na estréia do filme. Mas uns dias depois, ainda tava em tempo.
Foram ao cinema ver a estréia. Todas as mulheres já estavam com o rosto de Milene. Era um ambiente lindo, pensava. Como eram graciosas. Mas olhavam para ela, desatualizada, com desdém. Coitada, suburbana, pensavam. Embora que algumas ali estavam totalmente endividadas, mas já tinham a nova estética no rosto.
Os meses passaram. O dinheiro continuava muito curto. Não podia abrir mão das coisas básicas da casa por isso, mas já estava sentindo algumas retaliações. Sentiu que ter aparência antiga não agradava na entrevista de emprego, passava uma imagem de desleixo, de fracasso, de caricata. Nos restaurantes e bares, também. A família olhava estranho. Os amigos pararam de convidar para reuniões.
Mas aí que passaram uns meses e saiu uma série. Ficção científica. Diziam que era a melhor série de todos os tempos. A personagem principal era uma alien, com uma pele avermelhada com riscas brancas em relevo, não tinha um olho. Era muito bonita. Aparência inovadora, a frente do seu tempo, diziam. Ousada. Aquela anatomia prevenia até alguns tipos de câncer, diziam. E liberava mais serotonina. Gerou polêmica, os médicos se recusavam a fazer o procedimento, foi proibido, era muito arriscado. Todos em polvorosa. Era o item de luxo a ser alcançado.
Havia passado meses sem conseguir um trabalho por conta do seu rosto ultrapassado. Precisava mudar isso. Então, elaborou um plano detalhado, traçou antes o corpo, mediu, chamou a amiga e pegou um bisturi. Não tinha anestesia, tudo com esse efeito era caríssimo em 2049. Se cortou em várias tiras, do rosto ao centro da barriga, como a personagem. Pediu que a amiga esfregasse seu corpo com palha de aço em determinada intensidade, para criar o mesmo efeito das linhas no corpo da atriz. Ela gritava de dor. A amiga continuava com a mão firme e dizia que doía, normal, mas que ela devia focar no resultado final. Era o combinado que, no fim, jogasse vinagre, para cicatrizar bem e as linhas ficarem salientes e não tão uniformes. Jogou. Ela deu um grito muito agudo e curto, em seguida desmaiou. Quando acordou, achou que já estaria tudo pronto, mas faltava o olho. A amiga disse que não conseguiu porque era muito nojento. Ela procurou agir rápido, para acabar logo com aquilo. Enfiou o estilete no olho direito e puxou de uma vez. Ficou alguns minutos tremendo, com o olho pendurado pelo nervo óptico, perto do nariz. Na mesma hora a órbita ocular ficou preta, pela quantidade de sangue que saiu. A amiga foi no banheiro vomitar. Ela continuou tremendo, em uma espécie de transe. Enquanto a pele ainda estivesse úmida pelo sangue, poderia se mexer. Mas a cicatrização seria terrível. Pensava apenas: o pior já foi. Desabou o corpo contra a parede e sua mente se apegou no resultado. A amiga limpou tudo e deu uma injeção para não infeccionar.
Passou um mês. E saiu na rua. Ela era a única que havia feito o procedimento. As pessoas olhavam admiradas, a cumprimentavam. Sentiu o respeito dos familiares voltando. Ela dessa vez estava a frente e isso dava a ela respeito, inteligência, vanguardismo, inovação, status, coragem. Várias características foram atribuídas pelo novo bem que havia conquistado.
Se sentiu respeitada com nunca antes fora por duas semanas. Mas a injeção não adiantou, pegou uma infecção generalizada e morreu de uma forma bem dolorosa.
Ao menos foram poucas pessoas notaram que ela havia retirado o olho errado.
terça-feira, 5 de abril de 2022
Súbito
Chá mate
Um limão inteiro e uma xícara de mate. Precisava respirar um pouco. Respirar é tão estranho às vezes que parece não ser involuntário. Um pouco de música. Um pouco das próprias mãos. Apertava os próprios braços como se dissesse que estava tudo bem, afinal estava consigo mesma. Estou aqui e tudo vai se resolver. Isso vai parar porque você mesma está aqui.
Um pouco de pés no chão, no azulejo gelado, para diminuir a temperatura não do corpo, mas das ideias que rondavam a cabeça. Um pouco de silêncio lá fora. Um mute no mundo.
Como uma receita tarja preta. Um feitiço sem poder nenhum, esperando um resultado sobrenatural. Um limão inteiro e uma xícara de mate. Voltava a respirar aos poucos. Aos poucos.