quinta-feira, 21 de maio de 2026

Agente duplo

 Me pergunto quantas vezes durante a vida uma pessoa é um agente duplo. Quantas vidas é possível viver em uma. Quantas pessoas pode-se descobrir dentro de si mesmo e conseguir conviver com elas. Há quinze anos atrás, talvez eu abriria uma cerveja agora. Mas hoje, eu sinto ausência. Ainda fechando os olhos e ouvindo o barulho dos carros a noite, como antes. Mas, em minha própria presença no escuro, me sinto ausente. Havia um sentimento entediado e desanimado que estaria aqui agora, mas ele não está. Ele envelheceu? Ou ele se transmutou e virou nada. Eu consigo ouvir as palavras de Schopenhauer agora. Realmente estou ouvindo agora. Não há nada aqui. Nem uma grande exaltação, nem uma grande melancolia, uma gargalhada interna mal intencionada que me levava a escrever.

E esse sentimento não é um vazio. Não tem nada aqui que esteja melancólico, ao menos não de forma evidente. Eu preciso acordar cedo amanhã. Eu tenho coisas a perder e curioso, eu não perdi. Eu dei mais um passo quando eu largaria tudo e abriria no facão outro caminho no mato. E depois, dei mais outro passo. E mais outro e mais outro. E mais outro. Cheguei a conclusão que sou boa de cálculo. E agora uso muito menos meu facão. 

Eu consigo ainda olhar para dentro. São novos tempos, agora os olhos estão sempre em uso. Sempre ocupados em adquirir todo tipo de informação. Tem informação demais. Palavras demais. Coexistimos nos palanques uns dos outros, nas desgraças uns dos outros, nos melhores angulos uns dos outros. Porque é útil, porque é a forma mais esperta de fazer as coisas. A esperteza já nos levou a lugares mais interessantes.

Eu olho para tudo e consigo respirar. Eu escrevo agora e vejo como é diferente respirar escrevendo. Eu me li agora pouco e entrei em máquinas do tempo, em agentes duplos, triplos, quadruplos. Eu estava tentando sobreviver e sobrevivi. E não sinto nada. 

Porém, conforme escrevo, sinto que aquilo vem voltando. Como um reencontro de um amigo muito antigo, que nada muda independente do tempo separados. Ligar o interruptor do lado de dentro dos olhos em ceratite. Uma luz de uma lamparina morna, que não toma o escuro e sim se mescla com ele. Que toca as sombras dos objetos com uma paz intransponível e indivisível. Somos desde sempre e em ser, somos muitos. Muitas vidas, muitas mortes. Mais uma morte, um chá a meia luz. Encontrando não todo um contexto passado, mas em quais furos essa linha passou costurando tudo.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Dados

Procurar uma casa que seja em uma região bonita, que tenha uma janela para a rua e que se possa ouvir o vento. Para no fim, andar sempre correndo, não usar a varanda e não ouvir o vento. Amar o escuro e só apagar a luz para dormir. Amar o barulho dos carros, mas não consegue mais prestar atenção neles. 

São tantos acontecimentos, tantas novidades, tantas coisas interessantes que

a sinfonia da cidade silenciou. Ela não é mais a mesma?

Eu tinha uns 15 ou 16 anos quando apelidei caminhões de dinossauros. 
Meus olhos tem visto tantas coisas que cada vez menos tenho parado e fechado esses olhos, como costumava fazer em dias como esse, que o vento assobia. Ou quando na estrada, ouvir meus dinossauros no escuro. Minha sinfonia de cimento. Meu concerto de luzes móveis.

arvore na odisseia no espaço.

Eu estou perdendo alguma coisa. E não estou ganhando como poderia sugerir a quantidade de informação a qual estou me expondo. Eu realmente estou perdendo alguma coisa. Minha memória tem estado ruim. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Prática Isolacionista

https://www.youtube.com/watch?v=0YOXsll6t2Y&list=OLAK5uy_luKYwT9byNqnbXKZ_sHtftqVB57gT-OL8


 A luz de fora entra por uma fresta, presto atenção na minha respiração. Eu realmente vivo apenas por agora

Olho a minha feiúra pelos espelhos quebrados. Mesmo agora, com os cacos juntos, a cola é parte da solução e do problema


irreversível


Eu encaro a minha feiúra com paixão, deformada e destruída


Fragmentos que se uniram como laçados por chicote de ferro quente. Meu rosto queima e então eu respiro. Eu parei de pensar e segui a diante. Abri agora essa lata encaro minha feiúra no escuro e me reviro por dentro, para tocar sentimentos que só são possíveis de serem sentidos isoladamente. Gritaram e eu não ouvi o mundo. Sinto, simultaneamente, a minha estupidez, a minha arrogância, a minha verborragia tentando conectar palavras que se aproximem disso que eu eu preciso revisitar, de duras criticas ao externo que descrevo referenciando a mim mesma, o monstro bizarro que compõe o que me tornou o que enfim, estou. Eu parei de realmente escrever - as palavras que não são para serem lidas - para tentar não me odiar, para focar no que eu tenho de melhor que é essa cicatriz horrenda que me conecta e me dá sentido. Eu não encontro passos noutros caminhos. Eu respiro agora, eu respiro por meio de palavras, eu respiro no escuro. Eu sinto o vento e encosto em monstros de olhos fechados. Eu, em minha megalomania ridícula, corro pelo vazio nas florestas engalfinhadas da minha própria cabeça como deusa de um universo doloroso e apocaliptico.


amanhã é um grande dia. e eu não posso realmente ter um grande dia sem ter você. meu maior amor, meu demônio, minha deformação profunda, meu defeito, minha estrada interna, invisível e solitária.

sábado, 4 de junho de 2022

Monge

 As mãos estão grudadas no vácuo. Vazias. Como se aguardassem algo que pudessem ter na palma da mão para destruir. 

Seu colar estava no chão, no mesmo azulejo, havia três semanas. Seus pensamentos corriam como corcéis no escuro e conseguiam meditar apenas no barulho que a geladeira fazia de madrugada. Seu sono diário estava em torno das 3 horas. Escrevia na penumbra, escrevia nos cantos do crânio, nas memórias antigas, como amaldiçoada por Calíope. Não conseguia parar de pensar. As ideias tomaram conta do ambiente e destruíram o chão onde podia pisar. Das pessoas queria apenas as palavras e as imaginava como se fossem sem rosto e sem corpo. Perseguia os pensamentos como presas, um leopardo noturno em argumentos insones embreagados por xícaras de café, de chá, de cappuccino, até que um a um se esgotasse. Levantou e tomou dois pratos rasos de sopa e com eles viveu dois dias. O aluguel estava pago, mas a casa que estava morando era a própria mente. O pequeno espaço era um depósito de ossos. Mas precisava do som da geladeira, no silêncio da madrugada. O único momento de repouso daquele corpo estático.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Social

 Estreou um filme novo. A atriz principal era belíssima e parece que o filme era bom. Aquilo ia pegar. Já foi olhando o orçamento do mês: afinal, aquela mulher era muito diferente dela mesma. O cabelo era maior, o olho era mais escuro. Fazia uns quatro meses que aquela atriz loira do cabelo no ombro era o momento e que tinha feito todos os procedimentos para ter o rosto idêntico ao dela, como todas as outras mulheres. Mas parecia fazer muito tempo. Nem lembrava o nome da atriz, inclusive.

Essa de agora, Milene Denueve, tinha as bochechas mais cheias. A anterior tinha um rosto mais marcado e cadavérico. Havia se recuperado realmente bem de retirar as bochechas não fazia nem duas semanas. 

Ah, mas ia esperar mais um pouco antes de fazer uma nova cirurgia. Ia ficar um pouco fora de moda, mas ela não era como essas outras desesperadas aficcionadas por tendências. E também havia perdido o emprego a pouco tempo. Ia curtir um pouco mais a nova aparência, depois entrava na faca de novo. Doía, mas era sempre recompensador. Sua imagem diz quem você é, todo mundo dizia isso. 

A amiga mandou um holograma, com a foto de Milene. Era realmente bonita. Um novo recorte de rosto, nunca tinha visto. Diziam que com ele era possível respirar 30% melhor e mais um monte de outros benefícios que não conseguiu decorar, mas lembrava que eram vários. Ficou ansiosa. A colega disse que tentou combinar de marcar a clínica para o dia seguinte, mas não dava. Tudo lotado, não daria para adqurir a nova face na estréia do filme. Mas uns dias depois, ainda tava em tempo.

Foram ao cinema ver a estréia. Todas as mulheres já estavam com o rosto de Milene. Era um ambiente lindo, pensava. Como eram graciosas. Mas olhavam para ela, desatualizada, com desdém. Coitada, suburbana, pensavam. Embora que algumas ali estavam totalmente endividadas, mas já tinham a nova estética no rosto.

Os meses passaram. O dinheiro continuava muito curto. Não podia abrir mão das coisas básicas da casa por isso, mas já estava sentindo algumas retaliações. Sentiu que ter aparência antiga não agradava na entrevista de emprego, passava uma imagem de desleixo, de fracasso, de caricata. Nos restaurantes e bares, também. A família olhava estranho. Os amigos pararam de convidar para reuniões. 

Mas aí que passaram uns meses e saiu uma série. Ficção científica. Diziam que era a melhor série de todos os tempos. A personagem principal era uma alien, com uma pele avermelhada com riscas brancas em relevo, não tinha um olho. Era muito bonita. Aparência inovadora, a frente do seu tempo, diziam. Ousada. Aquela anatomia prevenia até alguns tipos de câncer, diziam. E liberava mais serotonina. Gerou polêmica, os médicos se recusavam a fazer o procedimento, foi proibido, era muito arriscado. Todos em polvorosa. Era o item de luxo a ser alcançado. 

Havia passado meses sem conseguir um trabalho por conta do seu rosto ultrapassado. Precisava mudar isso. Então, elaborou um plano detalhado, traçou antes o corpo, mediu, chamou a amiga e pegou um bisturi. Não tinha anestesia, tudo com esse efeito era caríssimo em 2049. Se cortou em várias tiras, do rosto ao centro da barriga, como a personagem. Pediu que a amiga esfregasse seu corpo com palha de aço em determinada intensidade, para criar o mesmo efeito das linhas no corpo da atriz. Ela gritava de dor. A amiga continuava com a mão firme e dizia que doía, normal, mas que ela devia focar no resultado final. Era o combinado que, no fim, jogasse vinagre, para cicatrizar bem e as linhas ficarem salientes e não tão uniformes. Jogou. Ela deu um grito muito agudo e curto, em seguida desmaiou. Quando acordou, achou que já estaria tudo pronto, mas faltava o olho. A amiga disse que não conseguiu porque era muito nojento. Ela procurou agir rápido, para acabar logo com aquilo. Enfiou o estilete no olho direito e puxou de uma vez. Ficou alguns minutos tremendo, com o olho pendurado pelo nervo óptico, perto do nariz. Na mesma hora a órbita ocular ficou preta, pela quantidade de sangue que saiu. A amiga foi no banheiro vomitar. Ela continuou tremendo, em uma espécie de transe. Enquanto a pele ainda estivesse úmida pelo sangue, poderia se mexer. Mas a cicatrização seria terrível. Pensava apenas: o pior já foi. Desabou o corpo contra a parede e sua mente se apegou no resultado. A amiga limpou tudo e deu uma injeção para não infeccionar.

Passou um mês. E saiu na rua. Ela era a única que havia feito o procedimento. As pessoas olhavam admiradas, a cumprimentavam. Sentiu o respeito dos familiares voltando. Ela dessa vez estava a frente e isso dava a ela respeito, inteligência, vanguardismo, inovação, status, coragem. Várias características foram atribuídas pelo novo bem que havia conquistado.

Se sentiu respeitada com nunca antes fora por duas semanas. Mas a injeção não adiantou, pegou uma infecção generalizada e morreu de uma forma bem dolorosa. 

Ao menos foram poucas pessoas notaram que ela havia retirado o olho errado.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Súbito

acordou correndo a casa estava sendo invadida não conseguia pensar no que deveria pegar ou em que ordem saiu do jeito que estava pela janela ouviu barulhos altos e carros pegando fogo gente em todas as direções correndo na rua os postes sem luz. viu nesse meio tempo pelo menos três pessoas sendo mortas na porrada e outras correndo com pedaços de cano, cabo elétrico, girando pneu de carro ladeira a baixo, concha de pegar sopa na cara do filho mais novo do vizinho. não tinha amizade com ninguém não tinha familiar próximo pensou em correr para algum lugar inacessível e de lá pensar melhor no que faria depois. subiu em um prédio próximo de uma perfumaria e não muitas pessoas haviam tido a mesma ideia. de cima viu: os mercados sendo saqueados, caixas eletrônicos destruídos, idosos e crianças pisoteados, mulheres e homens se espancando freneticamente. aproveitou a sombra de uma caixa de energia e se acocorou ali, estava sozinha, parecia ali um ótimo ponto cego, talvez conseguisse dormir agora e quando acordasse quem ainda tivesse vivo poderia estar dormindo. pegou no sono e mais ou menos três horas depois teve a cabeça aberta por um pedaço de porta de vidro de hospital.


                                   
estava em um atendimento pelo telefone e viu abarrotar de gente na escada em espiral, todos subindo  como uma serpente da morte até o andar superior. os telefones foram arrancados de suas mesas, os fios estrangulavam quem havia sido pego de surpresa. cadeiras, lápis, canetas, cintos, lentes de óculos, dentes, unhas, tudo ali virou uma arma de um segundo para outro. só havia uma porta naquele andar. ele urinou um pouquinho, antes de ser atingindo por uma divisória e ter o pulmão perfurado por uma faca de cozinha.




pulou no carro e bateu com força no vidro, o motorista acelerou e fez uma curva, jogando para o outro lado da rua. se ralou inteiro, o peito ficou exposto em osso e sangue, mas as mãos, braços e cabeça ainda se sacodiam e agrediam o próprio asfalto. deu uma cabeçada de boca aberta tão violenta no chão que afundou a parte superior da gengiva pra frente dos dentes, fraturando a mandíbula e o crânio. não conseguia se mexer e desmaiou com a dor, morreu horas depois atropelado por um caminhão que perdeu o rumo.



estava no chuveiro quando acabou a água saiu reclamando e foi sentindo algo diferente, saiu nu pelas escadas do prédio com uma vassoura que estava no box do banheiro e batendo na cabeça de todas as pessoas que foi encontrando pelo caminho. na frente do prédio havia um açougue, estava apinhado de pessoas que se confundiam com as carnes a serem vendidas no balcão. foi direto para o interior do lugar mas encontrou um funcionário que desceu o facão na perna e o jogou para dentro do frigorífico. lá dentro tinham outras pessoas, o funcionário jogou a faca e fechou a porta. havia gente com vidro, facas e espetos na mão, o lugar se tornou uma arena, pedaços de carne e sangue voando e grudando nas paredes e no teto, ossos aparecendo e gritos que ninguém ouviu do lado de fora. fraturas expostas, tripas e miúdos do corpo se amontoando no meio do lugar, olhos rolando pelo chão, cabelos usados como cordas, dentes cravados em rostos e pescoços, gargantas abertas espirrando feito chafarizes não durou nem uma hora até que virasse tudo uma grande massa bolonhesa com poucos pedaços distinguíveis.

Chá mate

Um limão inteiro e uma xícara de mate. Precisava respirar um pouco. Respirar é tão estranho às vezes que parece não ser involuntário. Um pouco de música. Um pouco das próprias mãos. Apertava os próprios braços como se dissesse que estava tudo bem, afinal estava consigo mesma. Estou aqui e tudo vai se resolver. Isso vai parar porque você mesma está aqui.

Um pouco de pés no chão, no azulejo gelado, para diminuir a temperatura não do corpo, mas das ideias que rondavam a cabeça. Um pouco de silêncio lá fora. Um mute no mundo.

Como uma receita tarja preta. Um feitiço sem poder nenhum, esperando um resultado sobrenatural. Um limão inteiro e uma xícara de mate. Voltava a respirar aos poucos. Aos poucos.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Possessão

você não sabe como é estar aqui dentro. você pode tentar escrever essas placas e coloca-las em mim. pode tentar acreditar nelas, tentar usa-las para que, pela mágoa e pelo cansaço, eu me encolha no que você diz. você pode tentar manter o controle dos outros, querer ser um mapa do arbítrio alheio, se mostrar profundamente ofendido por não estar no comando de outra vida. querer se ocultar enquanto quer total exposição do outro, querer arrancar um pedaço sadio da outra pessoa porque arbitrariamente você não o quer ali. você pode tentar possuir alguém que não pode ser possuído. Porque afinal não é algo, é alguém. nem mesmo o animal mais sereno pode ser controlado sem que perca um pouco do seu gosto pela vida. quem dirá os mais selvagens. a lealdade não mora na submissão, você entendeu tudo errado. se você ver algo selvagem demais e conseguir sua confiança, você não pode ter medo. é dali que você terá as reações mais intensas, a proteção mais fervorosa, você estará entre as patas de um leão. mas se você se guiar pelo medo, ao querer controlar pode tentar pela agressividade se fazer ouvir em frases que são diferentes das que você realmente quer dizer e nada disso dará resultados a você. é preciso ser claro, é preciso ser honesto. pela força, você nunca conseguirá. pela mentira e pela acusação, você nunca conseguirá. pelo contrário, cada algema, cada suspeita infundada, cada insinuação, são como um enxame de mosquitos sugando, incomodando, se tornando repulsivo, se tornando um fardo, um problema, um som agudo e irritante que aparece de repente. que não deixa dormir, que não dá repouso a mente do outro. sempre ali uma insinuação, algo que vem discreto mesmo quando não parece ter espaço e se faz presente de forma tão insistente que asfixia, com um gás venenoso que é disparado sem nenhum motivo aparente ou por motivos que não fazem sentido nenhum. Isso não te torna onipresente, isso não te aproxima, isso te torna um inseto, que se afasta com repelente. você pode ter raiva sem que precise ter razão, mas a raiva não nos dá direito sobre os outros, não nos autoriza a quebrar as cancelas daquele espaço coberto pelo nevoeiro ininteligível que são o que o outro sente e pensa. havia mais uma lata de cerveja na geladeira e ela ficou ali, havia recebido uma ligação que não atendeu, havia recebido mensagens que preferiu nem ler. havia sentido um sentimento tão ruim porque estava sendo atacada e era tão injusto, era tão errado que não sabia bem de que ponto começar a refutar, elaborava em sua cabeça linhas e linhas de réplicas que se acabavam na falta de sentido da própria situação. era óbvio que estava errado. você sabe disso, você apenas não liga, apenas quer descarregar algo que sente, apenas quer parar de ter medo, porque não se acha digno, não se acha o bastante. não importa quantas vezes ela tenha demonstrado o oposto. você foi testando os limites como se conquistasse territórios, mas o que estava fazendo era arrasando todo o plantio, queimando as casas e a comida que existia ali. todas aquelas palavras eram uma explicação lógica sobre algo que não tinha lógica nenhuma. não conseguiu dormir de madrugada, a resposta parecia interminável era interminável o quanto aquilo não deveria estar acontecendo. queria dormir e talvez precisasse conversar um pouco. tudo estava começando a se perder, se arruinar. explodia um pouco a cada dia, de dentro para fora. foi vendo suas conquistas começarem a se dissolver. precisava de força porque estava indignada demais para se concentrar em qualquer coisa. não fazia sentido. a realidade começava a ganhar cores estranhas, fios de consciência estranhos, aquilo se repetindo como uma tragédia e tudo tão imperdoável que continuar a briga era apenas tolo demais. essa foi uma guerra que você perdeu para você mesmo.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Proposta de texto injusta

Criar um aforismo que contenha 5 palavras das coisas que mais te perturbam atualmente.

Esse foi o meu.

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