Me pergunto quantas vezes durante a vida uma pessoa é um agente duplo. Quantas vidas é possível viver em uma. Quantas pessoas pode-se descobrir dentro de si mesmo e conseguir conviver com elas. Há quinze anos atrás, talvez eu abriria uma cerveja agora. Mas hoje, eu sinto ausência. Ainda fechando os olhos e ouvindo o barulho dos carros a noite, como antes. Mas, em minha própria presença no escuro, me sinto ausente. Havia um sentimento entediado e desanimado que estaria aqui agora, mas ele não está. Ele envelheceu? Ou ele se transmutou e virou nada. Eu consigo ouvir as palavras de Schopenhauer agora. Realmente estou ouvindo agora. Não há nada aqui. Nem uma grande exaltação, nem uma grande melancolia, uma gargalhada interna mal intencionada que me levava a escrever.
E esse sentimento não é um vazio. Não tem nada aqui que esteja melancólico, ao menos não de forma evidente. Eu preciso acordar cedo amanhã. Eu tenho coisas a perder e curioso, eu não perdi. Eu dei mais um passo quando eu largaria tudo e abriria no facão outro caminho no mato. E depois, dei mais outro passo. E mais outro e mais outro. E mais outro. Cheguei a conclusão que sou boa de cálculo. E agora uso muito menos meu facão.
Eu consigo ainda olhar para dentro. São novos tempos, agora os olhos estão sempre em uso. Sempre ocupados em adquirir todo tipo de informação. Tem informação demais. Palavras demais. Coexistimos nos palanques uns dos outros, nas desgraças uns dos outros, nos melhores angulos uns dos outros. Porque é útil, porque é a forma mais esperta de fazer as coisas. A esperteza já nos levou a lugares mais interessantes.
Eu olho para tudo e consigo respirar. Eu escrevo agora e vejo como é diferente respirar escrevendo. Eu me li agora pouco e entrei em máquinas do tempo, em agentes duplos, triplos, quadruplos. Eu estava tentando sobreviver e sobrevivi. E não sinto nada.
Porém, conforme escrevo, sinto que aquilo vem voltando. Como um reencontro de um amigo muito antigo, que nada muda independente do tempo separados. Ligar o interruptor do lado de dentro dos olhos em ceratite. Uma luz de uma lamparina morna, que não toma o escuro e sim se mescla com ele. Que toca as sombras dos objetos com uma paz intransponível e indivisível. Somos desde sempre e em ser, somos muitos. Muitas vidas, muitas mortes. Mais uma morte, um chá a meia luz. Encontrando não todo um contexto passado, mas em quais furos essa linha passou costurando tudo.
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